Gore Verbinski, realizador que “cai” do seu estado de graça após um colossal fiasco de nome “Lone Ranger”, e com outro insucesso a angariar (“A Cure for Wellness”), já combalido, e quase rendido, dispõe-se a disparar algumas ideias soltas (afiadas, irónicas, por vezes até ressentidas), apoiando-se no argumento de Matthew Robinson (“The Invention of Lying”) para o efeito.
“Good Luck, Have Fun, Don’t Die” espelha, de modo satírico (e por vezes nem tanto), preocupações, devaneios e modas tendenciosas que a Hollywood contemporânea tem acolhido sem grande resistência crítica. Este enredo, ao remexer um catálogo variado de viagens temporais, distopias antológicas, multiversos, AI em estado febril, acrescentando ainda o confronto geracional e Sam Rockwell (evidentemente) como um mendigo futurista (um John Connor em promoção), tudo organizado num mecanismo de repetição em loop (com “Groundhog Day” a servir de bússola inicial para situar o espectador), constitui, de uma ponta à outra, a condensação de todos os ‘cabelos brancos’ de Verbinski, habituado a grandes orçamentos e produções megalómanas, aqui transformados numa hóstia aromatizada pronta a desafiar o abundante “screen time“.
É como a personagem de Rockwell afirma na sua abordagem de persuasão, as nossas manhãs estenderam e estenderam devido aos smartphones e afins que dificilmente levantamos sem tirar os olhos do ecrã, a realidade tornou-se a segunda opção da nossa perspectiva. Se, em certos momentos, como este referido, damos de ‘caras’ com o… checkmate… do óbvio da nossa actualidade (a tecnodependência, o AI como motor de apocalipses futuristas e essa futurofobia quase popularizada, alimentando séries de sucesso como “Black Mirror”, referência incontornável), por outro lado acaba enredado na armadilha da sua própria proposta: alonga-se em demasia, apoia-se excessivamente nos seus truques e, a certa altura, torna-se refém de uma certa artificialidade.
Claro que a falta de subtexto (‘coisa’ que o próprio aponta com exactidão) revela-se igualmente numa carência vitamínica neste “Good Luck, Have Fun, Don’t Die”, tornando-o não só numa crítica em modo blockbuster algo hipócrita e pouco frutífera, apoiando-se em referências e agravando as suas próprias anomalias, como também assumindo num objecto com convicções de bilheteira que, lidas à luz das tendências, dificilmente conquistará.
É um filme em vão… e, vindo de Verbinski, vemos nisso uma certa tristeza, sinal de que a indústria e o dito cinema blockbuster (termo que teremos de redefinir no futuro, mais uma vez, perante os tais “lugares-comuns” aqui inquiridos) estão entregues a outros “autores”, muitos deles completamente anódinos, como, por exemplo, os Russos. É a intenção que não acompanha a motivação, não será certamente com isto que se combaterá o cada vez mais alargado “screen time“.

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