Romance de poucas páginas, de escrita sintetizada, sem nenhuma palavra a mais ou a menos, soa a um resumo Europa-América de um grande tratado humano, ou dos cárceres da vida; contudo, o número um dos livros do século XX, segundo o jornal “Le Monde”, revela-se uma obra de grande escritura, independentemente da perspectiva adoptada. Escrito em 1942 pelo filósofo e activista de esquerda Albert Camus (1913 – 1960), “O Estrangeiro” (“L’étranger”) constitui um romance depurado, despido de lirismos exagerados ou supérfluos; no seu âmago, é um livro que, com tão poucas palavras e descrições mínimas, atinge uma precisão quase ensurdecedora, como se a narrativa fosse berrada através de um megafone. Quem me dera escrever assim! Aliás, que lição de escrita este “estrangeirado” nos oferece.

A obra contou, até então, com duas adaptações cinematográficas, sendo a mais conhecida um dos filmes menos expressivos de Luchino Visconti, realizado em 1967, com Marcello Mastroianni na pele de Meursault, protagonista amaldiçoado pelas poeiras e pela luminosidade branca da Argélia, no contexto, uma colónia francesa, personagem cuja jornada se inicia com um impreciso telegrama sobre a morte da mãe — “Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos pêsames” (citação do livro) —, sem saber ao certo o dia da sua partida, “será que foi ontem?”. À chegada ao tão anunciado enterro, nenhuma lágrima é vertida em memória da progenitora, detalhe aparentemente inútil para a condução de carácter, ainda que hoje muito se discuta a manifestação do sentimento ou a figura do “homem sério”, termo inoportuno que pressupõe pouca ou nenhuma expressão emocional.

Mas, para Meursault, a ausência de lágrimas não indica falta de amor pela mulher que o “pariu”; trata-se antes do primeiro sinal de que estamos perante um protagonista (também narrador) atípico, algo passivo, e acima disso desajeitado perante as leis estabelecidas de uma sociedade. Assim sucede no trabalho, na vida amorosa e até na amizade: comporta-se ao sabor do vento, deixando que a vida o leve enquanto as decisões… essas ficam para outra altura. Tal personalidade acabará por lhe trazer problemas quando um crime é cometido (culpa do Sol? culpa do domingo?), e o seu julgamento revela-se mais um linchamento público à natureza do homem do que ao acto ilícito em si (a vida do árabe, a “verdadeira” vítima, nada vale aos olhos da justiça francesa).

Camus, através dos olhos inadaptados de Meursault, construiu um cenário de absurdo que não se limita à figura do protagonista, antes se estende à sociedade que o envolve, ditada por regras e costumes satirizados pela fúria emanada ao som do castigo divino. É nessa absurdidade que se evidencia um retrato crítico do colonialismo ali centrado enquanto contexto: os árabes surgem como parte da cenografia, descartáveis ou citados sem nome nem identidade, seres conquistados que parecem apenas partilhar espaço. Camus faz essa denúncia sem demagogias nem agendas escancaradas, num tom raro, porém inteligente, ainda mais vindo de um assumido activista de esquerda que, alguns anos depois, “cabeceava” o antigo colega e amigo Jean-Paul Sartre (autor de tantos elogios dirigidos a “O Estrangeiro”) pela sua defesa do estalinismo. “Contra todas as formas de totalitarismo”, manifestaria ele.

O livro não vive desse apontar de dedos em riste, nem do explícito desse efeito; vive, por outro lado, do “homem-espelho” que Meursault decide ser, sem culpas no cartório nem remorsos, uma existência que correu e se deixou correr pela cabeça dos outros. Contra protagonistas assertivos e fazedores do próprio destino, Camus preparou-nos um personagem sem robustez — ainda que a inteligência não o abandone. Talvez aí resida um dos seus calcanhares de Aquiles: essa sapiência que se transforma em maldição perante as correntes imperativas da sociedade. Há questionamento e, mais do que isso, oposição, mesmo que silenciosa. Meursault torna-se “anticristo”, cognome auferido durante o julgamento, mas é na prosa (sobretudo no segundo ato) que encontramos uma complexidade emocional implícita nas poucas descrições inerentes, neste caso as do encarceramento, na diferenciação dos “pensamentos de homem livre”, os quais o condenam a rejeitar o próprio cativeiro.

Saltando uma bem livre versão turca (“Yazgi”, dirigida por Zeki Demirkubuz, em 2001), chegamos agora ao irrequieto François Ozon, que se atira de cabeça ao romance, encorajando Benjamin Voisin, jovem actor com quem trabalhara em amores de verão adolescentes com honras fúnebres à lei musical de Rod Stewart em Été 85, para o papel de Meursault, entendido como um indivíduo indiferente, sem determinação nem motivação, existindo perante a mão pesada do tal Sol branco que tantas vezes lhe provoca desconforto. A fotografia de Manuel Dacosse (“Laissez bronzer les cadavres”), num preto e branco aprimorado na sua brancura, incandeia e fere a vista, exaltando esse poder solar embrulhado em místicas desconhecidas. 

Ozon, nesse sentido, transforma “L’Étranger” numa espécie de contemplação do delírio; em vez de extrair o lado absurdista do romance, procura na sua seriedade captar a inadaptação emocional do personagem enquanto é condenado (pela tal ausência lacrimejante) em tribunal aberto, acima do verdadeiro crime, o árabe morto com cinco balas perfurantes. Esta versão tende, em dois escassos momentos (mas nunca de escasso tempo), a insuflar a camada social e crítica colonialista, bem como a sub-humanidade projectada sobre os árabes nativos. O livro de Camus continha tudo isso de forma latente, confiando na inteligência do leitor; Ozon confia na astúcia e na leitura do seu público, mas deseja também encostar “L’Étranger” à modernidade, assimilando alguma energia e comunicação do presente.

Contudo, não nos desviemos do essencial: Voisin é formidável neste Meursault perdido em melancolias. Nos últimos actos, após os “pensamentos de homem livre”, surge o verdadeiro teste da sua interpretação: romper a carapaça, trespassar a acorrentada passividade, agonizar o próprio destino. Entram os créditos finais, toca “Killing an Arab” dos The Cure e … voilà, Ozon entendeu perfeitamente a obra, fiel e simultaneamente livre na interpretação, dotada de mestria e de um encantamento de fachada que expõe esse colonialismo que se queria higienizado; talvez possamos considerar que “L’Étranger”, na eventualidade de ser um dos melhores trabalhos do realizador em anos, constituiria de facto uma conversão que orgulharia o próprio Camus, um emolduramento fingido de uma sociedade suja e injusta, cujo centro estava um homem que se queria ser ouvido até na sua dúvida eterna, o viver na rigidez dessa tão adorada modernidade.

Espero que os cães não ladrem esta noite. Julgo sempre que é o meu”.

Deixe um comentário

Outras leituras