Um quarto de século a merecer celebração – uma animada celebração em grande tela (convém) – é a MONSTRA: Festival de Cinema de Animação de Lisboa a regressar para mais um ano, agora sob uma numeração de respeito, embora não se festeje mais do que o costume (o que não é pouco!). A mostra mantém-se como convite a linguagens narrativas experimentais, a estéticas singulares e a artistas em plena manifestação da sua arte; a animação por si, mais do que grelha infantil, é um espelho do mundo e da alma. Este ano, 2026, Letónia responde ao convite e abre o seu alçapão de filmografias por explorar e por relembrar, com o veterano Vladimir Leschiov a dizer presente e com direito a ciclo na Cinemateca de Lisboa, e ainda Vasco Granja recordado, Aardman comemorado, e Gaza, sob motivação de Joanna Quinn, defendida.

Mas quem melhor para falar da programação do que o director artístico Fernando Galrito, que, atendendo ao desafio do Cinematograficamente Falando …, aceitou abordar esta edição, as suas novidades, preocupações, AI e mensagens políticas.

A MONSTRA este ano celebra 25 edições. Gostava que fizesse um balanço deste quarto de século e se, de certa forma, a programação deste ano também reflecte a evolução do festival e a própria evolução do cinema de animação durante esse período.

Na realidade, o festival tem 26 anos e celebra agora a sua 25.ª edição. Houve um ano, em 2003, em que, infelizmente, não tivemos apoio e não o realizámos. Ainda assim, foi um quarto de século muito interessante, com mais alegrias do que tristezas, muitas aventuras, bons amigos e bons encontros. O objectivo principal do festival era — digamos — dar a conhecer cinematografias menos vistas e diferentes técnicas de animação, promover encontros entre o público e grandes mestres da animação mundial e mostrar os vários aspectos do próprio cinema de animação. Não apenas na relação com o ecrã (na forma como conta histórias e transmite emoções) como também, através das exposições, revelar o que está por trás de cada filme.

Há também a ideia de criar diálogos entre o cinema de animação e outras artes, aquilo a que chamamos o “para-lá do ecrã”. Ao longo destas 25 edições fomos experimentando com artistas da performance, do design, da arquitectura, da música e do teatro. Muitas dessas experiências deixaram frutos; aliás, ainda hoje existem projectos que continuam a acontecer e que nasceram ou foram criados no Festival MONSTRA. Outro eixo importante é a relação com o futuro, ou seja, com as novas tecnologias, como a realidade aumentada ou a realidade virtual. Mais recentemente surge também a questão da inteligência artificial e de como estas ferramentas podem interagir com as possibilidades criativas e com a liberdade que o cinema de animação, enquanto arte, permite.

Por isso, o balanço destas 25 edições é claramente positivo. Como dizias, não pensámos nada de especial para esta edição enquanto comemoração formal, mas ela acaba por reflectir uma evolução das propostas e daquilo que vamos observando ao longo do tempo. Destacaria, por exemplo, algo que tem vindo a crescer nos últimos anos e que se nota também na programação deste ano: a relação entre o cinema de animação de autor (ao qual o festival tem dado, e continuará a dar, um espaço muito grande) e o lado mais industrial, fundamental para a continuidade desta arte. Ou seja, ligar o cinema de autor ao cinema que chega aos grandes ecrãs, aos pequenos ecrãs da televisão ou mesmo aos ecrãs dos smartphones e de outras plataformas.

Tentamos também, através destes encontros entre realizadores, produtores e profissionais de todo o mundo, criar oportunidades em que Portugal, sozinho, dificilmente teria, por exemplo, a produção de obras de grande escala, que exigem investimentos muito elevados e que a coprodução internacional pode tornar possíveis. No fundo, queremos usar o festival para ajudar a que nasçam novas longas-metragens, mais séries de animação e filmes capazes de entrar noutros nichos de mercado para além do mais autoral, onde a circulação costuma ser mais limitada, muitas vezes restrita a festivais ou a programas muito específicos e nem sempre em horários de grande visibilidade nas televisões.

Pegando um pouco nessa ideia de crescimento, gostava que me falasse na importância dos workshops e das masterclasses. Se essas iniciativas dialogam com a … não não queria usar a palavra educação … mas de motivar esta “indústria” da animação em Portugal.

Sim. Uma coisa que nos dá muito prazer é encontrar pessoas na rua que nos dizem ter começado a ver filmes de animação diferentes por causa da MONSTRINHA, às vezes ainda muito pequeninas, e depois terem continuado a acompanhar a MONSTRA. Há também muitas pessoas que foram aprofundando os seus conhecimentos através das masterclasses e dos workshops que realizamos.

Este ano voltamos a receber alguns dos grandes mestres do cinema de animação mundial. Logo no início do festival, na sexta-feira, dia 13, teremos os irmãos Quay, dois gémeos que marcaram (e continuam a marcar) o lado mais experimental e surrealista da animação. Trabalham muito a relação entre imagem e música, por isso a masterclass será uma oportunidade para falar da sua obra e também de um filme realizado com um dos grandes experimentalistas da música mundial, Karlheinz Stockhausen, um encontro claro entre experimentação visual e musical.

Teremos também convidados do país em destaque este ano. Anete Melece virá falar sobre como pensa as histórias e as transforma em filmes de animação; alguns dos seus trabalhos poderão ser vistos na retrospectiva dedicada à Letónia. Vamos receber ainda Joanna Quinn, que apresentará um projecto sobre Gaza e sobre a forma como a comunidade internacional de animadores reage à situação vivida naquele território. O projecto reúne micro-filmes de autores de vários países e nasce também do trabalho de um grupo de mulheres que, em Gaza, faz oficinas de animação com crianças. Quinn, duas vezes nomeada para os Óscares e vencedora de vários BAFTA, é presença habitual na MONSTRA e mostra como a animação também pode reflectir o mundo.

Marcel et monsieur Pagnol (Sylvain Chomet, 2025)

Haverá ainda uma sessão dedicada ao Cartoon Modern. Assinalam-se 75 anos do aparecimento de personagens como Mr. Magoo e Gerald McBoing-Boing, criadas nos estúdios UPA [United Productions of America], que romperam com o modelo clássico da animação disneyana e introduziram uma estética modernista, muito ligada ao design, à pintura e à música da época. Para falar sobre isso teremos Amid Amidi, um dos grandes especialistas mundiais em animação, que abordará essa relação entre modernismo e animação, tanto nos Estados Unidos como na Europa, por exemplo na antiga Jugoslávia, hoje Croácia, com a chamada Escola de Zagreb.

Teremos ainda uma masterclass de Edmunds Jansons sobre como construir e contar uma história através de um filme de animação, e uma sessão dedicada à animação abstracta com Noelle Pujol. Haverá também um workshop com Laura Gonçalves e Alexandra Ramires sobre como fazer um filme “a duas mãos”, partilhando a experiência de criação em duo que marcou alguns dos trabalhos mais premiados da animação portuguesa. Para além disso, teremos várias masterclasses dirigidas ao público infantil, em escolas e no Cinema São Jorge. Este ano há também uma novidade com a Viarco, a única fábrica de lápis em Portugal. Vamos trazer a grafite para o cinema de animação através de mesas especiais que eles criaram e realizar um filme com esse material (uma forma de descobrir novas possibilidades num objecto tão comum como o lápis). Teremos ainda um workshop com a Gleba, explorando a ideia de como as bolachas podem ganhar vida.

Para um público mais adulto haverá dois workshops de três dias. Um deles, orientado por Lea Vidakovic e Radostina Neykova, parte do tema deste ano – Natureza e Sustentabilidade — e propõe criar animação a partir de resíduos e materiais reutilizados. Teremos também Julia Peguet, especialista em stop motion que trabalhou, entre outros, com os estúdios Aardman, a orientar um workshop dedicado à construção e animação de marionetas. No fundo, tudo isto reflecte um dos objectivos centrais da MONSTRA: trazer grandes mestres da animação mundial para partilharem o seu conhecimento com quem participa.

Pegando nessa última referência dos estúdios Aardman. Este ano há duas exposições que, de certa forma, também são muito simbólicas na história da MONSTRA: a exposição dedicada ao espólio de Vasco Granja e a celebração dos 50 anos dos Aardman, que o festival tem acompanhado praticamente desde sempre.

É verdade, os Aardman Studios celebram este ano 50 anos! Nós já estreámos, creio que três filmes deles em Portugal, no contexto da MONSTRA, antes mesmo da estreia comercial. Um deles foi o primeiro filme da “Ovelha Choné” (“Shaun the Sheep”), que passou primeiro na MONSTRA há alguns anos.

O primeiro?

Sim, o primeiro. Nessa altura tivemos também a presença do realizador, Nick Park, que veio falar sobre o filme e deu uma masterclass sobre o seu trabalho. Ele é vencedor de vários Óscares, tanto com “Wallace & Gromit” como com “Shaun the Sheep”, e é uma figura absolutamente central no universo da Aardman, e uma das figuras centrais. Este ano vamos também exibir a trilogia de curtas-metragens de “Wallace & Gromit” e, logo na abertura do festival, vamos fazer uma pequena homenagem às origens do estúdio, com a série “Morph”, que foi uma das primeiras criações da Aardman.

Vamos exibir dois filmes do Morph, criados por Peter Lord David Sproxton, os fundadores do estúdio. Aliás, o Peter Lord tem um hábito curioso: ainda hoje, quando viaja, costuma trazer no bolso um pouco de plasticina. Infelizmente ele não poderá estar connosco este ano, mas enviou-nos uma mensagem. Será, ainda assim, um grande momento entre o Cinema São Jorge e a Cinemateca Portuguesa, para celebrar os 50 anos de um dos estúdios de animação mais importantes do mundo.

Depois, voltando a Vasco Granja, que é uma figura absolutamente fundamental para todos nós. Falo também por mim: a nossa infância e juventude foram muito marcadas por aquilo que mostrava nos seus programas de televisão sobre cinema de animação, nomeadamente Imagem e Imagens (1985-1988). É com grande prazer que, no ano do centenário do seu nascimento, o evocamos desta forma. Ele era um homem extraordinariamente generoso, com muitos amigos pelo mundo inteiro, e foi também um grande activista cultural e político.

Teve uma actividade política bastante marcada, muitas vezes através do próprio cinema. Isso valeu-lhe, inclusivamente, duas prisões durante o regime: uma de seis meses e outra de cerca de um ano e meio, por ter exibido filmes que a censura e a PIDE consideravam que não deviam ser mostrados publicamente. Depois do 25 de Abril, teve a oportunidade de criar um programa na televisão pública dedicado ao cinema de animação. Inicialmente eram apenas seis programas, mas acabaram por transformar-se em mais de mil emissões ao longo de vários anos.

Entre 1974 e 1990 tivemos a sorte de poder ver, muitas vezes em horário nobre, os filmes que o Vasco Granja trazia para a televisão, e não eram apenas os clássicos americanos, como Bugs Bunny, Speedy Gonzales ou a Pantera Cor-de-Rosa, que ele adorava, mas também todo um cinema de animação que praticamente não conhecíamos. Falamos de filmes vindos sobretudo dos países da Europa de Leste, que durante muito tempo tinham sido praticamente invisíveis para nós. Nesses países havia uma enorme experimentação técnica: filmes feitos com marionetas, com areia, com ecrãs de alfinetes, com desenho, com muitas outras técnicas.

Ou seja, graças ao Vasco Granja percebemos que o cinema de animação podia ir muito além daquilo que era apenas o desenho animado tradicional. Foi extremamente importante para muitos de nós. Hoje em dia há muitas pessoas em Portugal que fazem cinema de animação e que reconhecem essa influência. Por isso, na Sociedade Nacional de Belas Artes, estamos a apresentar uma exposição com cerca de 120 originais que faziam parte da sua colecção pessoal.

São obras oferecidas por grandes nomes da animação e também da banda desenhada. Entre elas encontramos originais de Gerald McBoing-Boing, do filme Yellow Submarine, do Professor Baltazar, do Lápis Mágico, e também materiais ligados a Norman McLaren, de quem Vasco Granja era muito amigo. Para além disso, mostramos também fotografias, documentos e alguns dos milhares de artigos que ele escreveu para jornais e revistas ao longo da vida. No fundo, é uma visita ao seu espólio e à sua colecção privada.

Agora passando para o país convidado. O que é que motivou a escolha da Letónia para este ano?

Nós gostamos de saltitar, não só no mapa geográfico, mas também por algumas efemérides que vão acontecendo dentro do cinema de animação. A escolha da Letónia surge um pouco por duas razões. Por um lado, este ano assinalam-se os 60 anos de um dos seus principais estúdios de animação, especializado em stop motion. Por outro lado, trata-se de uma cinematografia que é muito pouco conhecida em Portugal, mas que é muito forte, muito interessante, muito bonita até, e também bastante interventiva. Tem uma sensibilidade muito grande e, ao mesmo tempo, uma grande capacidade de experimentação.

Esses foram alguns dos factores que nos levaram, há cerca de três ou quatro anos (porque nós tentamos sempre preparar o festival com bastante antecedência) a começar a trabalhar nesta ideia. Começámos então a falar com Riga, com as instituições ligadas ao cinema na Letónia, e a preparar esta retrospectiva. Depois, por coincidência, no ano passado a longa-metragem que ganhou o Óscar de Melhor Filme de Animação foi precisamente um filme letão, “Flow”, do realizador Gints Zilbalodis. Isso acabou por tornar esta retrospectiva ainda mais interessante, porque é um filme que teve uma enorme visibilidade e que, de certa forma, sintetiza também aquilo que é a criatividade e a vitalidade do cinema de animação da Letónia. No total reunimos cerca de 70 filmes, entre curtas e longas-metragens (filmes mais históricos e também filmes mais contemporâneos) para dar uma visão mais completa desta cinematografia. Naturalmente, vamos apresentar também os dois filmes de Gints Zilbalodis, “Flow” e “Away”.

Wallace & Gromit: The Wrong Trousers (Nick Park, 1993)

Teremos ainda uma retrospectiva dedicada a um grande amigo do festival, Vladimir Leschiov, que desenhou também o cartaz da MONSTRA deste ano. É um autor que conhecemos há mais de 30 anos e que é um grande artista e um grande realizador. Ele virá também dar uma masterclass sobre o seu trabalho e sobre a forma como constrói os seus filmes. Um aspecto curioso é que quase todos os seus filmes têm música do mesmo compositor, o canadiano Pierre-Yves Drapeau, que também estará presente. Os dois vão falar precisamente sobre essa relação criativa entre realizador e compositor e sobre como se constrói uma obra em conjunto. Portanto, tudo isto faz parte deste “pacote” de cerca de 70 filmes (entre curtas e longas-metragens) que apresentamos este ano.

Além disso, vamos trazer a Lisboa cerca de 12 produtores e realizadores da Letónia, que irão participar num encontro que organizamos entre profissionais de diferentes regiões: países da América Latina, os países ibéricos (Portugal e Espanha) e também os países bálticos, ou seja, Estónia, Lituânia e Letónia. A ideia é que cada um possa apresentar aquilo que faz, conhecer melhor o trabalho dos outros e, a partir daí, tentar criar novas oportunidades de colaboração e de coprodução. Estamos a falar de países que têm níveis de produção relativamente semelhantes, do ponto de vista económico. E isso muitas vezes facilita mais a coprodução entre países como Portugal, Letónia, Estónia ou Brasil do que, por exemplo, com países como França ou Alemanha, que têm níveis de financiamento muito mais elevados.

Portanto, este encontro também tem esse objectivo: incentivar novas coproduções e novas colaborações internacionais. Para terminar, esta presença da Letónia será também acompanhada por uma grande exposição no Museu da Marioneta, onde vamos apresentar 14 cenários e marionetas de filmes letões feitos em stop motion. É uma forma de mostrar também a dimensão material e artística deste tipo de cinema (os cenários, as personagens, os objectos) e de revelar ao público a diversidade e a qualidade da animação letã feita com marionetas.

Uma das novidades deste ano da MONSTRA é a competição de médias-metragens. Vou colocar a questão quase em jeito de provocação, porque continua a ser um formato que ainda não está totalmente definido: o que é exactamente uma média-metragem? Que critérios é que utilizaram para definir essa categoria? Até porque, olhando para a programação, encontramos filmes de média-metragem com 15 minutos, mas também curtas-metragens com igual duração.

Digamos que os 15 minutos foram a barreira que encontrámos. A ideia da competição de médias-metragens surgiu porque começámos a receber cada vez mais filmes com durações bastante longas, e isso criava, por vezes, a alguns problemas de organização dentro da programação e dentro das próprias secções do festival. Por outro lado, sentíamos que havia filmes com mais de 15 minutos que mereciam ter um espaço próprio e até um prémio específico, mas que por vezes eram “prejudicados” quando competiam directamente com curtas-metragens mais curtas. Ou seja, filmes abaixo dos 10 que também tinham uma grande qualidade.

Tentámos então equilibrar um pouco essa balança. Por um lado, reconhecer que há filmes mais longos, que têm mais tempo para desenvolver a sua história, as suas ideias e os seus personagens. Por outro lado, há filmes mais curtos que têm uma grande capacidade de síntese, que é, aliás, uma característica muito interessante no cinema de animação. Portanto, a ideia foi não os colocar exactamente no mesmo espaço competitivo, separá-los e avaliá-los também de forma diferente através de um júri específico. Esta ideia surgiu também porque fazemos parte de um grupo bastante alargado de festivais de animação que acontecem um pouco por todo o mundo. Todos os anos promovemos uma reunião durante o Festival de Annecy, onde discutimos várias questões relacionadas com a programação e a evolução dos festivais.

De certa forma, acabámos por ficar um pouco como “cobaias” para testar este modelo, porque há muitos festivais que já começam a ter essa preocupação, mas que ainda não tinham dado o passo de criar oficialmente uma competição de médias-metragens, e nós dissemos: bom, vamos experimentar. Vamos ver como funciona. Depois também será o festival e o público a dar-nos o seu feedback. Do ponto de vista da programação, para já ficámos bastante satisfeitos com esta divisão. Agora vamos ver como é que o público reage e como é que os próprios realizadores encaram esta nova secção. Se correr bem, acredito que a partir do próximo ano poderemos começar a ver também outros festivais a criarem competições semelhantes.

Agora, mais uma provocação! [risos] Há um par de questões que não posso deixar escapar, porque representam o “ar dos tempos”: uma delas é a inteligência artificial. O AI tem gerado muita discussão, até dentro do sector da animação, sobre se algo feito por AI pode ou não ser considerado animação. Gostaria de saber a sua opinião sobre a AI e, em relação à programação deste ano, se haverá algum filme feito com AI e, se houver, por que critérios o selecionaram.

Essa tem sido, de facto, uma discussão muito intensa, não só dentro do nosso festival, mas também fora dele, com colegas e amigos. Até este ano, ainda não apareceram muitos filmes feitos por inteligência artificial.

Mas existem?

Sim, existem. Aliás, há dois anos estreámos um filme de um realizador português na abertura do festival que depois esteve na competição. Grande parte da história foi escrita pela mulher dele, mas o filme foi criado com a ajuda da inteligência artificial.

Pessoalmente, cresci numa altura em que começámos a fazer animação em película Super 8. Depois fiz o meu primeiro filme, que ganhou prémios há 40 anos, feito em 16mm, com algumas experiências em 35 mm. Vinham de França filmes em película, e depois começámos a coordenar o Centro de Imagens e Técnicas Narrativas da Fundação Gulbenkian, que tinha adquirido os melhores equipamentos para fazer imagem por imagem em fita magnética. Mais tarde, passámos para o Betacam. Ou seja, pouco a pouco, a forma de trabalhar com imagens foi evoluindo de película para fita magnética, depois para computador. Com os computadores, as imagens passaram a sinais digitais (zeros e uns) e surgiram softwares hardwares que permitiam automatizar muitos processos. No 2D, por exemplo, o computador começou a fazer os intervalos. Depois veio o 3D, com avatars animados e captura de movimento, permitindo que um actor humano animasse diretamente o seu avatar. E agora surge a inteligência artificial: posso dar uma série de instruções ao computador, como “quero uma personagem com cabeça grande, olhos pequenos, nariz azul, braços que se esticam até dois metros”, e o computador cria a personagem e anima os movimentos.

Cada salto tecnológico gera sempre receio. Quando surgiram os telemóveis, diziam que íamos perder capacidades humanas. Hoje, passamos horas com eles nas mãos, mas adaptámo-nos. O mesmo acontece com a AI: continua a ser uma ferramenta, e os seres humanos permanecem essenciais na criação. Enquanto professor, observo que os alunos, quando começaram a usar computadores, deixaram de ir às oficinas gráficas. Mas, com o tempo, regressaram a técnicas tradicionais, como gravura e serigrafia, por exemplo, buscando uma textura que o computador não consegue reproduzir. A marca pessoal, ligada ao corpo (mão, cérebro, movimento) continua a ser fundamental.

Não acredito que a inteligência artificial acabe com a animação analógica ou tradicional. Mas temos de aprender a utilizá-la corretamente, sem sermos ludibriados. Devemos ensinar desde cedo a fazer as perguntas certas à AI. Ela não é tão inteligente quanto parece; só combina e processa a informação que nós lhe damos. Se não soubermos orientar, podemos receber resultados aleatórios ou errados. Por isso, é essencial aprender a trabalhar com esta ferramenta a nosso favor, como fazemos com outras tecnologias. Não devemos temer a AI, mas manter atenção e conhecimento.

This Land Is a Woman (Joanna Quinn, 2025)

A presença de Joanna Quinn e do filme “Para Gaza com Amor”. É um tema muito actual, ligado à arte e à expressão, mas também com alguma carga política, e todo em conta toda a controvérsia entre a Berlinale e os apelos de “apolitização” por parte de Wim Wenders. Podemos dizer que a MONSTRA faz um manifesto político com esta escolha?

Nós não fazemos manifestos partidários, mas qualquer atitude que tomamos têm um certo peso político. Por exemplo, se decidíssemos não passar os filmes sobre Gaza, isso também seria uma posição política. Anualmente, enfrentamos situações semelhantes devido às guerras no mundo. Passamos filmes russos? Sim. Ucranianos? Sim. Iranianos? Sim. Americanos? Sim. Israelitas? Também. Franceses, alemães, ingleses, do mundo inteiro? Sempre.

Acreditamos que a arte é uma forma de expressão. Não exibimos filmes que sejam apologistas da guerra ou de regimes totalitários. Mas filmes que expressem livremente a visão dos autores, desde que não incentivem violência ou ódio, passam. No caso do projeto de Joanna Quinn, ela se inspirou em mulheres que realizam oficinas de animação com crianças em Gaza. Quis juntar-se a esse movimento e pedir a artistas de todo o mundo para criar micro-filmes de 15 a 60 segundos sobre a situação em Gaza. Foram reunidos filmes de 50 países, totalizando quase quatro horas de exibição. Participaram desde jovens portugueses a realizadores consagrados, incluindo alguns premiados com Óscar. O objectivo é mostrar diversas perspetivas sobre o mundo, sem privar ninguém de expressar a sua visão. Não é um manifesto partidário, mas uma oportunidade de reflectir sobre questões sociais e humanas através da animação.

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Toda a programação poderá ser consultada aqui

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