Um beijinho com gosto de alcatra”

Se cairmos numa lógica de encantamento, saibamos que a Vida, sim, essa, com V maiúsculo, é fruto de um infinito acaso no nosso Planeta. Milhões e milhões de anos depois chegamos aqui, a este ‘poço’ a que chamamos Modernidade, estado volátil, porque o presente nunca é definido nem definitivo; a Vida, aí, encaramo-la como garantia, normalizada, do Nascimento à Morte, e nesse intervalo permitimos, afeiçoamos e interagimos, criando a nossa pegada, por vezes invisível, por vezes pouco detalhada, outras vezes gigantesca. Mas se… a Vida fosse encarada de outro modo, não como abundância ou mundanidade, mas como um fenómeno sem explicação, fora deste Mundo. Aliás, por que não, extraterrestre?

André Novais Oliveira, parte da nova geração de cineastas brasileiros (aí está, como o presente e a dita modernidade, estão sempre em movimento), reflete sobre si mesmo como fenómeno, ou melhor, sobre a própria existência, fruto de uma relação passada, resultado de um atrevimento, de uma rebeldia, de uma química qualquer; reflexão cujo motor são os seus pais, esses que, em pleno 70’s, com Tim Maia a cantarolar e rolês clandestinos cujas fugas os conduziam a praças de amassos e beijos roubados, deram início a uma relação nascida da desobediência, porque a passividade nunca foi geradora de dinâmicas histórias.

Uma inexplicabilidade interestelar — essa, o amor — que dura anos, persiste e faz caminho até alcançar o tal manobrável Presente, novamente com o ponto final da criação na esquina sorrateiro, a Morte, que também não é deste Mundo, parecendo invenção de ETs de Plutão com demasiado tempo livre. Novais Oliveira (com público fiel desde “Ela Volta na Quinta”, de 2014, e “Temporada”, em 2017) elabora com “Se eu fosse vivo … vivia” na sua carta de amor aos seus progenitores com brincadeiras e truques aqui e ali, filmando com o seu realismo sedimentado no mágico (ou melhor, realismo científico-ficcional) e sem ostentações de virtuosismo técnico (mesmo que a fotografia assinada pela portuguesa Leonor Teles ajude na sugestão desse fantástico), simples como manda a narração de festins; depois, os cenários a recortar as suas personagens, desde os corpos jovens rodeados pela multidão dançante (sozinhos entre si apesar de tudo) até à decadência dos seus corpos e mentes enquanto anciãos, sem que se percam ternuras e gestos de cuidado, a mais subtil e longeva romântica declaração.

Norberto Novais Oliveira, pai do realizador, e a escritora Conceição Evaristo (autora de conceituadas obras como “Olhos d’ Água” e “Canção para Ninar Menino Grande“), dão vida (aí está, o acaso novamente) a estes velhotes confrontados com a imensidão do espaço e com visitantes de outras dimensões (certo que pode ser metafórico, o fim da sanidade, da memória, da identidade, ali, figurada num “rapto alienígena” sem mais pormenores), quase como homenagem satírica ao mito urbano do ET de Varginha. É o amor, a regeneração, a degeneração, a morte, o fim, o outro lado, ou um existencialismo torcido e depurado: “Se eu fosse vivo … vivia”, pequeno ensaio sobre o existir, com gratidão por aquilo que consideramos à partida garantido. Viver como morrer, e morrer como viver, parte de um ciclo, parte de uma história acima de qualquer um de nós.

Berlinale Panorama

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