Das primeiras reacções por parte da imprensa e dos “moviegoers” a “The Bluff” fala-se de um suposto regresso do filme de piratas, chegando alguns a proclamá-lo como o melhor desde “Pirates of the Caribbean”, embora tal afirmação pouco queira dizer quando se recorda que, desde então, o subgénero swashbuckler (sobretudo na sua vertente marítima) tem vivido mais de eclipses ocasionais do que de uma verdadeira continuidade, com raras tentativas de ressurreição rapidamente enterradas sem honras fúnebres (basta recordar o infame “Cutthroat Island”, de Renny Harlin, em 1995, fracasso colossal que deixou a “pirataria” em estado comatoso até a Disney regressar ao convés).

“The Bluff”, produção destinada directamente ao streaming (aqui a Amazon como albergaria) e com o selo de produção dos irmãos Russo, apresenta-se como um conto de vingança ao qual os piratas servem sobretudo de pendura, promessa de grande escala que acaba por se revelar de dimensão mais contida (e ainda bem, não vá o caminho tropeçar em armadilhas mais comprometedoras). No centro da narrativa surge Priyanka Chopra, estrela de Bollywood sequestrada por Hollywood, a interpretar uma ex-pirata conhecida como “Bloody Mary” (a criatividade nas alcunhas parece já ter conhecido melhores dias), agora escondida numa ilha das Caraíbas sob nova identidade e com família constituída, até que o seu antigo ‘mestre’, e agora bucaneiro, Karl Urban (aqui a somar mais um território geek à carreira), a descobre, encaminhando inevitavelmente a intriga para o previsível embate mano-a-mano, com esgrima, punhais e traições à perna.

Como seria de esperar, trata-se de fast food à boa maneira na cozinha dos Russo, já demasiado habituados a estas andanças pelo streaming, onde produzem e realizam embriões de “action movies” semelhantes aos que Hollywood outrora fabricava em série, mas que nas mãos destes novos gestores do espectáculo surgem frequentemente descaracterizados ou sodomizados (“The Gray Man”, The Electric State”), com ocasionais tentativas de musculatura mais carpinteirada (“Extraction”). No fundo, e talvez por isso tenham que sejam constantemente escolhidos para conduzir a maquinaria de “The Avengers”, os Russo revelam-se artesãos competentes do seu próprio anonimato, sem ambições além da ganância do capital.

“The Bluff”, fiel ao seu título, é em grande medida um bluff de filme, embora também não esconda verdadeiramente as suas intenções: entrega um swashbuckler reduzido ao mínimo das suas capacidades, com um ou outro ponto no mapa a destacar-se das restantes “bestialidades” associadas ao catálogo dos Russo, mérito que se deve sobretudo ao par central — Chopra e Urban — encarregues de distribuir carisma parcelado (mais seria até excessivo). No final, porém, a sensação permanece familiar às restantes produções domésticas desta fraternidade criativa: faz-se a cruz, viram-se as velas para outros mares e, na manhã seguinte, pouco ou nada resta na memória. Aventuras falsificadas.

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