A uma polegada de distância surge “A Noiva”, depois de Guillermo del Toro ter sintetizado os seus temas e os ter enfiado pela goela abaixo do legado de Mary Shelley e desse seu Prometeu moderno; sucesso ou insucesso, os Óscares reconheceram-no, parte dos cinéfilos não, apontando-lhe artificialidade enquanto o cineasta mexicano (que já conheceu voos mais altos) sermoneia o físico contra a IA, a sala de cinema contra a sala de estar, apresentando simultaneamente uma produção cuja estética ressoa a barato e a tecnológico (‘cadê’ os efeitos práticos e os cenários construídos de raiz que ostenta no making of?), tudo com direito ao N vermelho e ao batuque inaugural da Netflix (para mais tarde tombar na mesma cama das enésimas temporadas da série do momento de há um par de meses e dessas anonimizadas chamadas produções Netflix).
Mas não batamos no ceguinho, porque no fundo “Frankenstein” de Del Toro é, em teoria, um filme à imagem das preocupações do seu realizador; nada contra releituras, e chegamos agora a outra, a de Maggie Gyllenhaal, na sua segunda longa-metragem enquanto realizadora (cinco anos depois de “The Lost Daughter”, com base num livro de Elena Ferrante), concedendo à personagem secundária do livro de Shelley o direito ao seu próprio holofote, erguendo um filme impregnado de manifesto à la Virginie Despentes, onde o King Kong teorizado é afinal o monstro (agora assumindo o título do seu criador e vagueando pelas eras na mais tremenda solidão), solicitando uma companheira a uma das mais brilhantes cientistas do seu tempo, seguindo passo a passo os ensinamentos de Victor Frankenstein, desenterrando um corpo e devolvendo-lhe a vida; dessa quimera nasce a protagonista, Pretty Penelope, assim baptizada por Frank’, que se encarrega de lhe atribuir um passado conveniente.
Voltando às releituras, “The Bride!” decorre nos anos 30 e fá-lo com sangue rebelde, aguerrido e com escarro suficiente para cuspir sobre detractores; filme irrequieto, feminista, caótico na execução, sem com isso resvalar para o caos, criatura com personalidade, ora escavacada na arte de ofender, ora consciente do legado, não propriamente o de Mary Shelley, mas o desta personagem, a Noiva, encontrando aqui emancipação, ainda que tenha sido no cinema que “A Noiva de Frankenstein” / “Bride of Frankenstein” (realizado por James Whale, 1935) lhe concedera protagonismo sob a iconica pose de Elsa Lanchester. A tal sequela introduziu outro monstro à galeria da Universal, e até então a dita Noiva impusera-se como figura independente da mitologia onde foi extraída, incursão principal por direito próprio, até interpretações mais recentes do romance a reduzirem a consequência do mais grotesco acto perpetrado pelo torturado Victor Frankenstein, gesto repetido tanto por Kenneth Branagh na sua versão fiel como por Del Toro.

Maggie Gyllenhaal reinstala uma espécie de justiça cinematográfica, colocando a tourettiana Pretty Penelope como definitiva aberração da sua própria história — “Não és Ida, não és Pretty Penelope, não és a noiva de Frankenstein, és, sim, a Noiva!” —, enquanto, no uso do seu palco, aponta ao manifesto: fala de mulheres apagadas, directa e indirectamente, a nossa Noiva, antes chamada Ida, perseguida por um gangster de nome Lupino (Ida + Lupino, percebem a referência?), ou da personagem de Penélope Cruz, à mercê da clemência dos homens no poder para se afirmar por direito, ou ainda de Annette Bening, aqui a brilhante “cientista louca”, cuja assinatura abreviada em C., sem extensões, funciona como passaporte para a publicação dos seus artigos científicos, sem questionamentos de sexo nem outros entraves.
No centro (ou que centro!) está Jessie Buckley, actriz do momento com “Hamnet”, de Chloé Zhao, pura entropia com genitália, imprevisível, instantânea, monstruosamente sedutora; e Christian Bale, o outro monstro, o oposto, contido, desfigurado, exausto, ingénuo perante a Humanidade atravessada no ecrã (o cinema é aqui encarado como ponto de fuga destas criaturas, os filmes enquanto terapia e conselheiros das suas vidas tumultuosas). Ambos formam isto: o casal bestial, o Bonnie & Clyde picotado, o movimento, o manifesto; que bom seguir na energia de Gyllenhaal, porque “The Bride!” encarna tudo aquilo que Del Toro não logrou ser na sua intensa revisão de Mary Shelley. É amor tóxico, fétido ar do nosso tempo.

Deixe um comentário