Paul Verhoeven demonstrou-se constantemente apreensivo perante possíveis novas versões de “Starship Troopers” (de momento um projecto em limbo, ainda associado a Neill Blomkamp), sobretudo quando o propósito passa por adaptar (fielmente) o livro homónimo de Robert A. Heinlein, de conotações fascistas-militaristas, obra que o holandês — ainda a equilibrar-se em Hollywood após o fracasso descomunal de “Showgirls” (1995) — compreendeu e, com a graça da escrita de Edward Neumeier (colaboração de onde resultara outra ácida crítica ao sistema disfarçada de entretenimento pueril, “Robocop”), transformou num filme sobre outro filme: num primeiro plano, o tal espectáculo esteticamente fascista; num segundo, a sátira dessa propaganda e dos seus simbolismos decretados. 

Verhoeven é holandês, europeu no sentido mais amplo, hereditariamente familiarizado com esta ‘coisa’ das “propagandas fascistas”, embora talvez ainda pouco sintonizado com as audiências americanas (isto nos primórdios da Fox News, cadeia televisiva criada por Rupert Murdoch, a qual possivelmente encaixa nesse perfil). Assim, em 1997, quem pagasse bilhete para assistir a este Dia D interestelar, numa realidade onde humanos travam guerra permanente contra uma raça alienígena insectoide, encontraria, consoante a sua visão do mundo, um filme exaltadamente patriótico ou a tal paródia sangrenta e ácida, tão verhoeveniana.

Já em 2026, ao (re)visitar a obra, entramos em colisão com o zeitgeist actual: invasões (ou, preferindo o eufemismo, “intervenções militares”) em “planetas de outros”, a demonização do grande Outro (seguindo a ideia orwelliana posteriormente apropriada por Slavoj Žižek perante a construção de um inimigo despersonalizado, usado como motivação política e social) e o “Doing my Part”, inicialmente inserido no panfleto televisivo de alistamento, entre rodapés e hiperligações, o protótipo das redes sociais, dos seus algoritmos e pop-ups persuasivos, avançando num apelo às armas e, sobretudo, aos corpos, os dos ‘cidadãos’, diferenciados dos ‘civis’, como é leccionado pelo professor encarnando por Michael Ironside (também ‘cara conhecida’ do cinema de Verhoeven) perante alunos no termo da sua obrigação educativa. Uma espécie de “lavagem cerebral”, aliada à ditadura das notas percentuais e ao “Junta-te a Nós”, difundido escola a escola, aproveitando e “violando” a ingenuidade e ignorância de jovens formados para servir o seu Exército. Verhoeven recorre à mesma fórmula de “Robocop”, embora de forma mais agressiva (e abusiva), intercalando a narrativa com esses brindes da “comunicação social” distópica (mas contextualizadas), quebrando o “filme sério” ao serviço de uma ideologia conduzida como um “cavalo de Troia”.

E que filme é esse? Johnny Rico (Casper van Dien, até então no contributo mais relevante da sua carreira cinematográfica), jovem de Buenos Aires (acreditamos já não ser mais a Argentina que estamos a familiarizar), decide alistar-se na interminável guerra contra os Arachnids, seres de outro espaço que, por vias inexplicáveis, ameaçam a existência da Humanidade, quer na Terra, quer nas diferentes colónias espaciais. Tudo aliciado pelos ensinamentos do professor e tenente no liceu e pela então namorada Carmen Ibanez (Denise Richards), que, perante as suas excepcionais notas, se mostra determinada a seguir carreira no sector Aeroespacial das Forças Armadas. A juntar à ménage, surge o alistamento do amigo Carl Jenkins (Neil Patrick Harris), direccionado para o sector de inteligência da Instituição.

Rico é encaminhado para a infantaria e, antes da despedida, “los tres amigos” pactuam manter a amizade, apesar das hierarquias e da distância, beliscando as subliminares histórias de companheirismo escritas por Erich Maria Remarque, na influência da Primeira Guerra Mundial. A partir daqui, entre episódios “full metal jacket” ou “top gun” com galáxias pelo meio, destaca-se uma curiosa cena de implantação dos propósitos do Estado: uma longa sequência num chuveiro colectivo da recruta, sem divisórias nem ângulos mortos, onde homens e mulheres, sob a máquina propagandista e belicista, se tornam corpos assexuados, desprovidos de libido. Estratégia plenamente fascista: reduzir corpos ao mínimo dos seus desejos, convertendo-os em instrumentos do Estado (desejos regulados apenas para funções reprodutivas ou, como aqui, subjugados ao serviço, ferramentas de acção, intervenção e preservação de um regime assente na realidade bélica). Um corpo disciplinado, vigiado e punido — poucos minutos depois, Rico é castigado exemplarmente em modo espectáculo, ao vivo perante extensa audiência, a restante recruta e o corpo hierarquizado militar —, foucaultianamente falando, o “exemplo” ao indivíduo (à mercê da diluição identitária) e ao colectivo (a audiência, a sociedade). O protagonista torna-se mártir dessa máquina, não apenas propagandista (consciência), mas também punitiva e, no reverso da moeda, recompensadora (os estímulos de um regime sobrevivente através do conflito e do medo institucionalizado).

Noutro momento, surge uma aparente redenção ou salvamento moral deste Rico-menino, quando a individualidade sobressai e o desejo (ainda que por via sexual por uma camarada, com o empurrão do seu tenente “frio” e automatizado no sistema, ponto recompensador do regime) é consumado; contudo, volta a ser lançado no triturador pela tragédia (a segunda), após o motivo catastrófico da destruição de Buenos Aires por “ataque alienígena” (Buenos Aires? Por que razão Buenos Aires? O que suscita a provocação da iminência de um projecto neocolonialista americano de abocanhar o ‘continente’?). O filme não apresenta provas, antes instala dúvidas sobre a legitimidade do ataque humano àqueles “invasores” (mas quem é, afinal, o invasor?).

Someone asked me once if I knew the difference between a civilian and a citizen. I know now. A citizen has the courage to make the safety of the human race their personal responsibility. Dizzy was my friend. She was a soldier. But most important, she was a citizen of the Federation.”

Julgo que “Starship Troopers”, à luz do presente, é claramente um filme político, independentemente da forma como seja lido: ora exercício belicista salivante para patriotas e militarizados, ora divagação satírica verhoeveniana; neste último ponto reside, para todos os efeitos, um dos filmes mais importantes da colheita hollywoodesca dos anos 90, por vezes subestimado, reduzido à sua farsa e ao objecto satirizado, mas sobrevivente, resistente e combativo contra as forças que pretendem aniquilar, ou pelo menos neutralizar, a sua mensagem (o realizador apenas continuaria em Hollywood no projecto seguinte, o malfadado “Hollow Man”, em 2000). 

Phil Tippett, produtor e responsável pelos efeitos visuais (tira-se o chapéu pela sua durabilidade-veracidade ao longo destes anos), assinaria posteriormente uma sequela directa para o mercado de videoclube, desvirtuando o sentido que Verhoeven escudara na obra. Outras continuações se seguiram (Casper van Dien regressa como Rico num terceiro filme) e algumas animações (nota de curiosidade: antes da versão de 1997 existira uma mini-série japonesa, transmitida em 1988), agora frutos dessa propaganda que Hollywood sempre implementou e continua a implementar como justificação de uma fantasia belicista. O de Morrer pela Pátria: o espectáculo de Grande Ecrã.

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