O formato de “Exit 8” seria fácil de encabeçar em algum exercício do movimento teatral Europa Kikaku (ver “Beyond the Infinite 2 Minutes”), cujas propostas exigem truques narrativos criativos, de conceitos simples e performaticamente desafiantes e de deliberada resistência à realidade imposta e ao cânone aristotélico, sendo a repetição um traço assumido, uma verdadeira matéria de trabalho que obstina a ordem da sua iminente excursão. 

Aqui, partindo de um homónimo videojogo (produzido pela Kotake Create), o filme tende a seguir essa ordem lúdica e jogável, disfarçada neste indivíduo (Kazunari Ninomiya) perdido num túnel de metro, um loop tempo-espacial onde, para o evadir, terá de atravessar as 8 saídas, apenas acessíveis mediante a detecção de anomalias na realidade. Por momentos, breves até a narrativa deparar com o seu próprio limite (já lá vamos), o espectador vê-se desafiado a estabelecer cumplicidade com este protagonista na procura desses achados, ou glitches na lógica, torcendo por uma saída … de preferência simples e sem penalizações.

Genki Kawamura, o realizador e co-argumentista (e também produtor de algumas obras de Hirokazu Koreeda e Makoto Shinkai), movimenta-se com astúcia pelo som e pelos seus efeitos sonoros, elementos essenciais na criação de uma espécie de tortura auditiva, por vezes delirante, mas igualmente atmosférica. Quando “Exit 8” pretende arrepiar, fá-lo com distinção. Aliás, o efeito-videojogo parece abrir caminho a outras possibilidades, nomeadamente à crítica social, rosnando contra o quotidiano saturado nas directrizes ultra-capitalistas e produtivas do termo, e, por outro lado, desferindo um golpe no dito colectivismo nipónico, o qual impõe um individualismo anti-identitário, movido pela lógica da ordem e do progresso (trabalhar até morrer).

Porém, o exercício rasga-se no seu miolo, pois há um sentimento de o filme se querer preencher, justificar o seu tempo, e, para tal, abalroa o seu minimalismo, introduz outras personagens, acrescenta conflitos por resolver, abre parênteses ao travelling até então carpinteiro e ao mistério, induzindo uma espécie de intervalo, dir-se-ia, regressando depois ao nosso protagonista desorientado, desesperado na busca da oitava saída e no seu dilema pessoal relacionado com a ex-namorada grávida que apenas presencia-se com chamadas telefónicas (a sua ligação com o exterior). 

Fora isso, “Exit 8” permanece como uma curiosidade de género, demonstrando que os nipónicos ainda possuem ideias e conceitos por explorar, nem que seja inspirando-se no seu próprio conteúdo de videojogo. Nestes propósitos, questiono, estaremos, porém, perante a mais fiel e respeitosa adaptação?

“Exit 8” poderá ser visualizado a partir do dia 27 de Fevereiro na plataforma FilmTwist

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