No bairro de Inhambane, a sul de Moçambique, todos vivem as suas vidas, pequenas células isoladas: conflitos familiares, preocupações sociais, crenças e afazeres, é o retalho do quotidiano, ali, à mercê de qualquer abanão. Dir-se-ia até um bailado, um ritmo próprio. À noite, estes seres, encostados cada um à sua realidade, encontram-se para dançar; a música chama-os e hipnotiza-os. As suas realidades são, por fim, deixadas de lado: tornam-se corpos que se comunicam pelo movimento, pela coreografia, pelas notas altas, pelos “batuques”; vivem a noite, saboreiam o prazer dela como um qualquer elixir de juventude, a sua religião, ou melhor momento de partilha espiritual. O amanhã virá com outro dia, e os mesmos afazeres regressarão como imperativos actos.

Ico Costa volta a mostrar a sua paixão por Moçambique, pela sua gente e, sobretudo, pela música e a relação desta com a população nativa. “Balane 3”, documentário de proximidade, centrado nos tempos agendados para o seu “night out”, celebra esse compromisso com o lúdico, o ócio e o encanto sensorial. O filme estreia esta semana nos cinemas portugueses, e, para o Cinematograficamente Falando …, fala-nos da sua relação com o país que o acolheu, o adoptou e o convidou para a sua rave, no meio há tempo para falar de produções e ‘olhares europeus’ sobre a África.

Numa pesquisa rápida antes deste nosso encontro, constatei que o Ico não é de Moçambique nem tem qualquer ligação anterior ao país; aliás, nasceu em Lisboa, tendo em conta o que consta na sua biografia. Portanto, gostaria de saber de onde nasce esse seu fascínio por Moçambique? Começou com a curta “Nyo Vweta Nafta”?

Posso dizer que não começou por aí. Filmei essa curta em 2015, mas tinha ido antes, em 2011, com uma bolsa de estágio do programa Inov-Arte, ainda no tempo do Sócrates. Fiquei lá um ano a trabalhar numa associação dedicada à prevenção do VIH através da música e de vídeos; inicialmente o foco era mais a música, mas, quando cheguei, desenvolvemos mais a componente de vídeo, e acabei por realizar alguns documentários, videoclipes e outros projectos.

Depois desse ano, fui conhecendo pessoas e apaixonei-me pelo país. Em 2012 fiz ainda uma curta-metragem muito amadora e, em 2015, voltei para filmar “Nyo Vweta Nafta”. A partir daí, de cada vez que regressava, surgia sempre uma história nova, algo que me apetecia mostrar. Sobretudo no início, havia uma vontade muito clara de revelar uma realidade de Moçambique que raramente nos chega, porque se fala quase sempre de miséria e de pobreza, e é evidente que Moçambique, como muitos países africanos, enfrenta inúmeros problemas sociais e económicos, que também estão presentes nos meus filmes, mas não se esgota nisso. “Nyo Vweta Nafta”, “Domy+Ailucha: Cenas Kets!”, “Ouro e o Mundo” e, mais tarde, “Balane 3” partem muito dessa intenção de mostrar outra face do país: as relações de amizade, as relações amorosas, o quotidiano, dimensões que considero profundamente interessantes e, em muitos aspectos, bastante diferentes do que se vive aqui.

Pegando na longa “O Ouro e o Mundo”, há algo de particularmente interessante: as personagens falam muito do seu lugar, do seu país, muitas vezes em contraste com a Europa. Há, inclusive, um momento em que discutem Portugal e a Europa e declaram não invejar propriamente a vida no Ocidente. E em “Balane 3” deparamos com uma sequência semelhante, mas centrada nas relações amorosas e na forma como cada hemisfério as encara. Esta sua trajectória em Moçambique, ao longo dos filmes, é também uma maneira de mostrar personagens que defendem o seu estilo de vida, até perante uma certa ocidentalização?

É mais complexo do que isso. É evidente que muitas pessoas querem vir para a Europa, procuram melhores condições de vida, menos corrupção, menos desigualdade, e essa dimensão também está presente nos meus filmes. “O Ouro e o Mundo” aborda precisamente essa vontade de sair em busca de uma vida melhor. Mas quem parte e emigra acaba muitas vezes por perceber que a vida lá fora não é necessariamente melhor. Quando sabem que o salário mínimo em Portugal ronda os 900 euros e, lá, é cerca de 60, é natural que queiram vir; porém, ao chegarem e confrontarem-se com rendas de mil euros, começam inevitavelmente a reconsiderar.

Em “Balane 3” essa questão não é tão central. O que conhecem da vida europeia resulta sobretudo do contacto com europeus que viajam para lá, uma franja muito pequena da sociedade, geralmente composta por pessoas com um nível de vida bastante elevado.

Em “Balane 3” filmo muito os meus amigos, e há ali uma cultura de brincadeira constante, em que se provocam uns aos outros; nessas trocas, surge muitas vezes uma crítica ao nosso estilo de vida europeu. Essa cena reflecte um pouco isso, mas é também uma reflexão minha, porque, apesar da componente documental do filme, há sempre escolhas minhas (momentos que decido mostrar) e uma posição pessoal sobre o branco europeu, que já vinha de “O Ouro e o Mundo”.

Ouro e o Mundo (2024)

Falando do “Balane 3”, sente-se muito essa dimensão documental. Já em “O Ouro e o Mundo” havia uma narrativa mais construída e pensada. E como acabou por referir, o Ico trabalha com não-atores, muitas vezes com amigos. Como é que seleciona e trabalha a ideia do filme antes de o conceber com essas pessoas?

O “Balane 3” foi feito de uma forma muito peculiar. Estava em Moçambique em 2019 para começar a preparar “O Ouro e o Mundo”, mas o processo não estava a correr bem. Os castings não estavam a funcionar, os ensaios também não. Fiquei frustrado e percebi que precisava de parar para repensar o guião. Ao mesmo tempo tinha uma curta para fazer, e durante esses dois meses em que estava a tentar preparar o outro filme, fui anotando situações que achava interessantes: conversas, lugares, pessoas. Então surgiu essa ideia de fazer um filme-mosaico, feito dessas situações que ia observando. Fui juntando tudo, os diálogos que tinha na cabeça, momentos que queria filmar, e assim nasceu.

O filme começa como um mosaico, é verdade, com uma mão cheia de personagens, todas com as suas vidas, debates sobre política, relações, namoros… mas depois há algo que as une: a música. A música parece ser o ponto de convergência.

A música é central na vida dos moçambicanos. Aliás, a música e a dança. É normal ver miúdos de três ou quatro anos já a dançar. Faz parte do quotidiano. Todos os meus filmes têm essa componente. Quando estava a preparar o “Balane 3”, tinha a ideia de que o filme fosse do início do dia até ao fim da noite e é à noite que acontece mais música, mais dança. Desde cedo pensei nesse clímax musical. E aquelas danças, muitas vezes com um teor bastante sexual, resumem um pouco as conversas que vão acontecendo ao longo do filme.

E também quebram um certo conservadorismo presente na sociedade?

Cá acho que somos muito mais conservadores do que lá. Há muito mais liberdade para dizer o que se pensa, para se mostrar como se é. Disso não tenho dúvidas.

Falou da música, e é curioso porque muitos filmes moçambicanos que chegam cá são documentários sobre música. O que demonstra essa relação muito forte.

Sim, completamente. Em Moçambique o estilo mais conhecido é a marrabenta, que cá quase não se ouve, mas fora isso, é impossível escapar à música lá. As pessoas estão sempre a ouvir música, a cantar, a dançar, faz parte do seu ADN cultural.

Sobre o calendário dos filmes: filmou o “Balane 3” antes ou depois de “O Ouro e o Mundo”?

Filmei o “Balane 3” em 2019, antes de filmar “O Ouro e o Mundo”, só que a estreia foi muito mais tarde. O filme teve problemas na pós-produção. Foi filmado em película e a película apanhou raio-X no aeroporto, ficou parcialmente velada. Teve de passar por um processo de restauro. Depois entrou a pandemia, parei a montagem, e tinha obrigações de terminar “O Ouro e o Mundo”, que era uma coprodução francesa. Só depois de filmar e terminar esse é que pude voltar ao “Balane 3”. Por isso é que às vezes digo que é um filme anacrónico: foi filmado em 2019, mas estreou muito depois.

Pergunto isto porque em 2024 aconteceram os tumultos políticos em Moçambique. O “Balane 3” acaba por não refletir esse momento.

Não, não reflete. Mas vivi muito esse período. Estou agora a finalizar a correção de cor de um documentário que filmei durante a campanha eleitoral de 2024, chamado “Povo e Poder”. É um retrato do país nesse momento, já não apenas na cidade onde costumo filmar, mas percorrendo várias regiões. Filmámos também os tumultos. É um filme com um teor mais político, inevitavelmente.

Moçambique mudou depois de 2024?

Não diria que mudou radicalmente, porque a violência sempre foi uma presença latente. Depois da guerra colonial houve a guerra civil, que durou 16 anos. Quando um país cresce nesse contexto, a violência não desaparece de um dia para o outro. O que mudou foi a consciência das pessoas em relação à desigualdade. A internet e as redes sociais democratizaram o acesso à informação. As pessoas começaram a perceber melhor a injustiça estrutural (a corrupção, o sistema oligárquico), e os jovens saíram mais à rua.

Moçambique hoje é provavelmente mais desigual do que no período pós-guerra. Os tumultos não criaram essa situação, foram consequência de um processo de degradação que já vinha de trás.

Balane 3 (2025)

Tenho que lhe fazer esta pergunta porque estamos a viver uma espécie de “ressaca” em torno do caso (e sucesso) do “Riso e a Faca”, que foi filmado na Guiné, e há sempre esta ideia de portugueses a filmarem em África e ceder tendencialmente ao exotismo. Porém, sinto que, nos seus filmes, há um cuidado diferente. A única dimensão onde talvez se possa falar de exotismo está na música. Tirando isso, parece-me que os seus filmes fogem bastante desse olhar exótico. E outra diferença, por exemplo, em relação ao filme do Pedro Pinho, sente-se constantemente uma necessidade de afirmar que é um homem branco a filmar em África. Sei que é uma pergunta delicada, mas imagino que seja uma crítica que recebes com frequência … a de ser um homem branco europeu a filmar um país africano.

Sim, acho que tudo depende da posição em que te colocas. Por vezes até vejo realizadores africanos a filmarem África com um certo olhar exótico. Porque muitos realizadores africanos vêm de classes privilegiadas, vivem em zonas mais ricas das capitais. Também sou privilegiado, sou branco, claro … mas quando estou lá não vivo numa zona privilegiada. Vivo em bairros populares, tenho amigos que não são de classes altas.

Portanto, tudo depende da forma como posicionas em relação ao que vais filmar. Quem tem de dizer se se sente exotizado ou não são as pessoas de lá. Nunca senti que isso estivesse a acontecer nos meus filmes, porque trabalho muito para ter um olhar justo, e a própria forma de trabalho reflete isso: filmo com equipas pequenas, passo muito tempo com as pessoas. Em relação ao que estavas a dizer sobre o Pedro Pinho e essa necessidade de estar constantemente a afirmar que é branco — não sinto a necessidade de fazer isso. Qualquer pessoa que veja os meus filmes percebe que sou branco. Não sinto que tenha de estar a pedir desculpa por isso ou a justificar-me.

O que me interessa é ouvir o que as pessoas de lá têm a dizer sobre os meus filmes e a verdade é que eles têm sido sempre recebidos com bastante carinho. As pessoas revêem-se nos filmes. Faço filmes sobre eles, não faço filmes sobre brancos em Moçambique. São histórias e situações que eu espero que sejam reais, e sinto que é assim que são entendidas lá. O que as pessoas dizem cá… claro que me interessa, mas interessa-me menos. O que mais me importa é a relação que construo com as pessoas de lá e a forma como elas se sentem representadas.

E já agora, pegando nisso: as pessoas com quem o Ico trabalha nesses filmes em Moçambique também detêm alguma parte do processo criativo das mesmas? 

Claro, completamente! Os actores, ou melhor, as pessoas filmadas, têm sempre uma parte criativa muito forte. “O Ouro e o Mundo” é um filme de ficção, mas diria que 70% dos diálogos são improvisados. Aliás, a crise que tive em 2019 (quando senti que o guião não estava a funcionar nos ensaios) vinha muito disso. Sentia que estava a impor demasiado o meu discurso.

Gosto de trabalhar com actores não profissionais. E digo sempre isto: não gosto nada da expressão “não-actores”. O que é um não-actor? Eles são actores … são é actores não profissionais. E gosto de trabalhar com eles porque não me interessava, por exemplo, fazer “O Ouro e o Mundo” com actores profissionais de Maputo, que vivem em apartamentos, que são privilegiados, e levá-los para fazer de garimpeiros pobres em Manica. Queria trabalhar com os próprios garimpeiros. Porque eles têm coisas verdadeiras, autênticas, para me dizer. Pretendo filmar a verdade, ou pelo menos estar o mais próximo possível dela. Para mim, o mais importante é isso: estar próximo da realidade.

Por isso, o processo criativo com eles é total. Quase nem sei comparar com o trabalho com actores profissionais, porque ao longo da minha carreira só trabalhei com um actor profissional, em Maputo, há muitos anos, e até diria que foi menos desafiante para mim. Trabalhar com actores não profissionais é muito difícil, eles não estão habituados a estar diante de uma câmara, não têm a técnica, mas ao mesmo tempo o meu trabalho é fazer com que se esqueçam de que estamos ali a filmar. Embora, na verdade, nunca se esqueçam completamente [risos]. Por isso é que prefiro trabalhar com equipas pequenas: para criar um ambiente confortável, para que se sintam à vontade e possam dar o seu contributo da melhor forma.

No “Ouro e o Mundo” disse que 70% dos diálogos são improvisados, mas isso também acontece em “Nyo Vweta Nafta”, e no “Balane 3” também. No caso do “Balane 3”, sendo um documentário, houve temas que lancei, conversas que provoquei, orientações, como acontece em qualquer documentário. Mas eles nunca estão a dizer uma coisa em que não acreditam. Nunca dizem algo que não pensam ou que não tomem como verdade.

Ico Costa

Para terminar: visto já ter mencionado o seu novo projeto, que está em pós-produção, mas queria perguntar-lhe igualmente sobre a vertente da produção. Para além de realizador, o Ico é produtor e tem uma produtora, a Oublaum.

Gostaria que me falasse um pouco sobre a natureza dessas produções. Elas encaixam-se no seu perfil enquanto autor? Porque muitas das pessoas que realizam esses filmes também trabalham consigo, fazem parte das tais “equipas pequenas”, por exemplo, o Raul Domingues, realizador de “Terra que Marca”, foi director de fotografia em “O Ouro e o Mundo”.

Foi, sim. E neste novo filme, “Povo e Poder”, também é operador de câmara e produtor. Desse filme acho que já falei um pouco, mas, por exemplo, agora, terça-feira, dia 17 [esta conversa ocorreu no dia 13 de Fevereiro], vai estrear em Berlim, na secção Panorama, um filme que coproduzi através da Oublaum Filmes, do realizador paraguaio Marcelo Martinessi [“Narciso”]. Tenho também em produção um projecto com o realizador moçambicano Inadelso Cossa, que fez “As Noites Ainda Cheiram a Pólvora”, que estreou em Berlim há dois anos.

Enquanto produtor, faço sobretudo co-produções. Tenho uma produtora muito pequena, portanto o trabalho é bastante selectivo. Já co-produzi também com o Eduardo Williams. No ano passado estreou em Berlim o filme da Tatiana Fuentes Sadowski, “La memoria de las mariposas”, que ganhou uma menção especial para melhor documentário. É um trabalho que é paralelo à realização. Também porque viver só da realização não é fácil, mas sobretudo porque gosto de acompanhar projectos em que acredito.

Se há um perfil comum nesses filmes? À primeira vista são muito diferentes. “La memoria de las mariposas” é um documentário de arquivo; o “Narciso” é uma ficção histórica passada nos anos 50, no Paraguai. São universos bastante distintos. Talvez a única coisa que tenham em comum é que comecei por produzir filmes de amigos: o Marcelo, o Eduardo, a Inês T. Alves, o Raul, a Tatiana… São pessoas com quem tenho uma relação próxima. Acima de tudo, há um interesse forte por projectos com uma componente social relevante. Filmes com os quais me identifico, que dialogam com questões políticas, históricas ou sociais.

Agora, também não quero fechar portas. Enquanto realizador tenho ideias muito claras sobre o que quero fazer. Enquanto produtor, o papel é diferente, é mais de acompanhamento, de viabilização. Nem sempre controlo tudo da mesma forma. Por vezes surgem projectos inesperados que me interessam por razões que não são tão evidentes à partida.

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