Talvez pelo pequeno intervalo entre ambos, com “Nina Roza” pensamos automaticamente em “Perla”, de Alexandra Makarová, estreado no ano passado no Festival de Roterdão; sendo que os dois filmes oferecem histórias de retornados às suas origens, ex-”colónias” soviéticas, e, a partir daí, confrontam-nos com a aprendizagem (ou com o desafio) de encarar o esquivo Passado e traçar uma linha de entendimento para com as suas raízes. Se o filme mencionado se revelava mais provocador e cruel com o seu destino, já a obra de Geneviève Dulude-De Celles (quarta longa-metragem) envereda por uma espécie de terapia identitária. O curador de arte, Mihail (Galin Stoev), parte para do Quebec para a Bulgária, a sua terra natal, na condição de mediador de um comprador interessado nos trabalhos de uma criança prodígio residente numa remota aldeia. Durante a estadia nessa “terra de ninguém”, confronta-se rapidamente com o seu passado, designadamente com a família deixada para trás e com a cultura búlgara em vias de esquecimento.
Se “Nina Roza” e “Perla” dão as mãos como espécies de curandeiros das feridas geopolíticas dessa ‘coisa’ chamada fronteiras movediças, impondo até uma revisão simbólica aos Pactos de Varsóvia, é precisamente aí que se tornam um ponto curioso de cinema interessado em revisitar a antiga Cortina de Ferro, a fim de isolar uma cultura-identitária germinada na destituição soviética ou resistente sob esse manto. Fora isso, “Nina Roza” ambiciona ser mais existencialista do que meramente politizado, encantando-se com a regressão, com o contacto com os traumas e as evasões, reconstituindo a condição de emigrante e traçando os seus pecados como trilho calcetado; é nessa passagem que a personagem de Stoev determinará as suas escolhas.
Infelizmente, o filme acaba por ceder ao moralismo de um certo provincianismo (exaltando o ruralismo e toda a sua semiótica, e a preservação das conexões familiares e tradicionais), como se o cinema permanecesse território de bons actos e de epifanias, uma espécie de terapia, diríamos até, em choque frontal com a realidade que nos afronta e que nos dissociam das nossas nacionalidades para fins globalizados (o filme nunca vem em contra essa ideia, porque primeiramente é uma co-produção entre dois continentes). Ainda assim, Stoev mantém-se firme no carrossel, aguenta a pedalada em trazer humanidade a um “turista acidental”.
Filme em competição no Festival de Berlim 2026

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