À primeira vista “Sleepaway Camp” (1983) surge-nos como um copycat do original “Friday the 13th” (Sean S. Cunningham, 1980) , ambos slashers movies em que um homicida incógnito massacra jovens num campo de férias à beira de um lago plantado, culminando ainda num twist final quanto à identidade do assassino. Mas é precisamente nesta sintaxe que as semelhanças com a saga que pariria Jason Voorhees como cão voraz do subgénero terminam, pois é evidente que o realizador Robert Hiltzik tinha outras influências em mente, em modo grosso “Psycho” de Hitchcock (1960), nem que seja pela conturbação identitária do serial-killer, ou simplesmente pelo seu “transvestismo” como símbolo de perversão. Contudo, onde Norman Bates (Anthony Perkins) exorcizava a repreensão vivida durante anos sob a égide da mãe soberana ao fim de a “encarnar”, a nossa Angela (Felissa Rose), igualmente fruto de uma ditatorialidade maternal, invoca o espírito da irmã falecida, o qual assume contra a sua vontade esse lugar.
Peço desde já desculpa por desembarcar na reviravolta sem aviso prévio, visto ser difícil referir “Sleepaway Camp” sem indiciar aquele final, aquela revelação do antagonista, ponto a partir do qual se converteu, ora num filme de culto ao longo dos anos, ora num slasher controverso compreendido nesse mesmo tempo. O filme tem sido acusado de transfobia (pela representação da transsexualidade e a sua sugerida conexão para com a violência, não sendo o único filme da sua época a fazê-lo), e até de homofobia, ao delinear um dos vértices do trauma de Angela; aliás, é de modo geral um slasher de traumas, de opressões e de moralidades calculadas e qualificadas, onde até o mais íntimo da nossa(o) assassina(o) (o filme nunca define concretamente a sua identidade sexual) funciona como vendetta pelos males habitados naquele campo de férias, desde o cozinheiro pedófilo ao director adúltero, ao bully e, em screen off, ao transfóbico (provavelmente).
Mais do que os elementos anti-puristas de sexo, drogas e álcool próprios de slashers mais convencionais pós-Sexta-Feira 13, Angela é, em todo o caso, uma espécie de anti-heroína macabra, cuja catarse violenta parte da revelação do seu pénis, naquele momento-choque quase simiesco em que o seu corpo nu expõe o seu verdadeiro corpo, e o órgão que a define sexualmente numa sociedade heteronormativa. É uma forma de ler um filme que parece viver desse segredo, após o qual, numa revisitação ao campo de férias, encaramos uma narrativa que esconde ingloriamente o seu assassino, mas que, a um olhar atento, se revela sem espinhas perante neste enredo quase coral e sem definidas final girls ou até final boys, espaço onde surge a violência decretada.
“Sleepaway Camp” conseguiu gerar algumas sequelas, sendo a segunda, mais directa, a relatar o regresso de Angela (agora sob a pele de Pamela Springsteen, irmã mais nova do cantautor Bruce Springsteen) ao campo de férias, tentando lidar com o seu instinto assassino e, simultaneamente, com a sua identidade sexual ainda por resolver. Tal como o original, e seguindo essa lógica, a continuação possui ecos da própria sequela de “Psycho” (1983), onde Norman Bates, saído da instituição psiquiátrica, tenta reabilitar-se num mundo que continua a vê-lo como um monstro, além do fantasma da progenitora que o assombra sem dó nem piedade. Quanto a “Sleepaway Camp 2” (1988), sob o subtítulo de “Unhappy Campers”, abraça a comédia, como fruto do seu tempo, e como resposta a um franchise acusado de imitar “Friday the 13th”.
Felissa Rose regressaria ao papel de Angela, juntamente com o também retornado actor Paul DeAngelo, em “Return to Sleepaway Camp” (2008), com o realizador Hiltzik igualmente de volta à franquia.

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