Muita ‘tinta’ correu sobre as estranhas declarações de Wim Wenders em Berlim, enquanto presidente de júri, possivelmente uma alegada manobra de desvio das questões sobre a Palestina e do constante estrangulamento por parte do evento (e do Estado) perante essas vozes, ao referir que os “artistas devem afastar da política” (parafraseado livremente), ao invés disso encarando “o cinema como órgão de empatia”. Não falarei sobre a natureza das questões, nem sobre o que seria apropriado (ou até o timing) desta manifestação, nem tampouco sobre a própria condição política de quem a proferiu, mas, se o cinema é empatia e a política algo a higienizar, uma ideia abstracta de um cinema sem política, então uma obra como “Sound of Falling”, de Mascha Schilinski (apresentado no Festival de Cannes de 2025), não teria lugar nos gostos do jurado berlinense deste ano.
Porque a empatia aqui é pouca, quase desértica, tratando-se de um filme expositivo do trauma feminino na Alemanha ao longo de um século, desde os assombros da Primeira Guerra, com homens mutilados para sobreviver e mulheres votadas à subserviência, ou à morte sempre à espreita, sempre presente, espiritualmente omnisciente neste pequeno retalho das trevas, juntando emancipação, descoberta sexual e hormonal, mulheres feitas e mulheres partidas, seres merecedores de empatia, embora o filme não lhes conceda tal espaço, transformando-as ora em corpos, ora em espectros politizados.
Tudo em “Sound of Falling” é político, seja na sua silenciada declaração de repreensão ou dívida perante o lugar da mulher nas pequenas histórias, seja na escolha narrativa em diluir os quatro tempos (correspondentes aos anos 10, 40, 80 e 2020) numa só linhagem frankensteiniana (sim, cada tomo temporal comunica com os demais). Portanto, tudo é político: entreter constitui um gesto político, subir ao palanque é, sem subtilezas, a agressão própria da política, suspirar uma ideia, um subtexto, corresponde igualmente a uma manobra política, requerer o tempo é uma actividade política, escolher ser apolítico revela-se também uma decisão política; sim, todo o cinema, escancarado na sua forma, contido ou simplesmente negando, é absolutamente político.
Agora, se o tema (leia-se, a mensagem) eleva o filme a um estatuto de divindade, a orfandade face à estetização desvanece-se, a formalidade esvazia-se; porém, “Sound of Falling” escolhe a imagética para recolher e depois lançar os seus assuntos, ficando excessivamente preso a essa formalidade, seca, fria, por vezes roçando a abjecção. Entende-se tudo desde o primeiro momento; o restante torna-se repetição, negando a estas personagens, a estes tempos, o seu devido espaço, até porque já não são plenamente nem umas nem outros, mas antes artifícios politizados de um cinema sem esconderijos, sem mangas rebaixadas … político é que se quer!
Evidentemente… Wim Wenders, se tivesse permanecido em silêncio e olhado para o Sol, perceberia o óbvio.

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