Poderia ser uma descida ao Inferno em jeito de Dante, mas não. “Frost” (“Geada”), o novo filme do lituano Sharunas Bartas, é o encontro com uma Ucrânia pós-Maidan, a revolução de 2014 que indiciava um novo capítulo na História desse país, mas cujas promessas não chegaram a se cumprir. Aqui, somos confrontados com um cenário devastado em que o medo impera e a hipocrisia dos protegidos mistura-se com um ativismo sem resolução, não faltando ainda militares forçados a combater na sua pátria na forma de uma resistência.
Estreado na última Quinzena de Realizadores, “Frost” chega por fim aos cinemas portugueses. Um filme frio, calculista e delicado que tenta incentivar o debate no espectador acima de tecer a sua própria ideologia. O Cinematograficamente Falando … falou com o realizador sobre alguns pontos fulcrais deste projeto.
Nos primeiros minutos do filme, o protagonista procura o termo “Maidan” na internet, o qual o levará a algumas imagens do homónimo documentário de Sergei Loznitsa. De certa maneira, “Frost” é uma (des)romantização da romantização atribuída à insurreição de Kiev?
Se estou certo, está a presumir que “Frost” desmistifica a revolta decorrida em Kiev? O dito romance nesse tipo de eventos só pode ser produto de imaginação. Não existe romantização ali.
“Jornalismo não é mais uma vocação, tornou-se numa oportunidade”. Aqui temos um comentário sobre a própria condição do jornalismo de Guerra assim como do chamado jornalismo participativo, onde cada um pode criar a sua própria informação. A revolução de Kiev conduziu a essa “fabricação informativa”? E como esta citação exemplifica a gradual transformação do protagonista?
O jornalismo que opera nesses chamados “lugares críticos” é, obviamente, diferente. Uns resistem e arriscam as suas vidas para nos mostrar a realidade para o resto do Mundo, outros convertem-se em “vendedores desse material”, de uma maneira algo cínica. O protagonista nada sabe daquilo que presencia num país que não é o seu, a Ucrânia. Por isso, ele terá que escolher no que quer acreditar.
Se o protagonista tende a apresentar tendências jornalísticas ao longo da narrativa, é verdade que esta jornada intrínseca entra em paralelismo com o seu trabalho enquanto realizador. Será “Frost” a sua peça ficcional de jornalismo?
Não. Não consigo encontrar um paralelo aqui. Julgo que não seria correto definir “Frost” como uma peça ficcional de jornalismo. É somente uma jornada à Ucrânia devastada.
Nos seus filmes, é claro a existência de uma delicadeza estética. Em “Frost” é sugerido um abandono dessa mesma “delicadeza” em prol de um comentário sociopolítico. Tem receio que por momentos o seu filme seja propício a causas propagandistas?
Não acredito que este filme possa servir para tais causas, até porque em “Frost” nunca faço uma declaração direta. Nunca me posiciono em nenhum lado concreto.

Curiosamente, “Frost” é um dos poucos filmes que vimos recentemente em que não existe uma “demonização” cega do papel do militar. Contudo, as questões de patriotismo encontram-se inseridas nos seus discursos.
A Guerra é em todos os cenários um demónio, no qual se reflete o pior da raça humana. Conquistamos, destruímos e detemos (à força) melhores territórios, etc. Infelizmente, quando olhamos para a História deparamos com uma guerra prolongada. Nós compreendemos esses “demónios” e tentamos eliminá-los. O que não sei é até quando isso acontecerá definitivamente.
Como decorreu o casting?
Como sempre, dispensamos muito tempo a procurar atores e não-atores, que queiram trabalhar nas ditas condições. Muitos que integram o filme são “não profissionais”. Nós fazemos sempre o casting “on the road” (durante a jornada), até porque atuar é no geral expressar sentimentos ou emoções para outra pessoa, para outras sociedades. Não é nada de sobrenatural para todos nós.
Quanto ao envolvimento de Vanessa Paradis no projeto?
Vanessa é para além de uma excelente pessoa, uma ótima atriz, que foi capaz de improvisar e sentir as diferentes situações que ela experienciou anteriormente, e ao mesmo tempo ser capaz de se envolver neste processo de atuação com tamanha devoção. Ela foi o coração deste projeto.
Esta jornada por uma Ucrânia dividida e constantemente ameaçada enriqueceu-lhe como pessoa da mesma forma como realizador? Como vê esse atual cenário e como o Cinema poderá ser uma ferramenta na revelação das mesmas?
É certo que existe uma guerra não declarada a acontecer na Ucrânia. A situação é crítica e, obviamente, tal experiência enriqueceu-me. Cada dia, cada mês, isso incutia algo no meu coração. O Cinema é diverso, como sabemos. Existem filmes analíticos, documentários, alguns que levantam problemas, outros questões do panorama social e depois os que procuram respostas. Nos meus filmes, o que tento fazer é desvendar experiências na vida de alguém. Somente isso.
Quanto a novos projetos?
Sinceramente, eu nunca falo de projetos em estado tão precoce. Peço desculpas.

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