Ponto um, devo começar por pronunciar-me sobre a limitação que é reduzir esta obra de Chan-wook Park a um mero “retrato de masculinidade tóxica”, abordagem completamente redutora e até distrativa relativamente àquilo que o filme parece indicar, através de um humor corrosivo e de uma mórbida ironia: a selvajaria do mercado de trabalho. Vejamos: entendendo que “No Other Choice” (frase repetidamente reiterada ao longo da narrativa) é uma adaptação do livro de Donald E. Westlake, que por sua vez passou por uma transcrição à la Costa-Gavras (“Le Couperet”, 2005), nele se desenvolve uma incansável gag de um desempregado que, para regressar ao seu status, se vê determinado a “eliminar” toda a concorrência de uma eventual vaga de emprego. Mas é o ponto inicial desta descrição, status, compreendendo também identidade, aquilo que o trabalho proporciona, acima do mero sustento, como delineador do nosso estado perante o Mundo.
Desde os primórdios do capitalismo, ou dos seus protótipos antes do “real thing”, construiu-se a ideia de que o trabalho constitui o objetivo derradeiro da nossa existência, prescrevendo um ego, um “eu” centrado na natureza do trabalho e na classe social provida desse mesmo espaço laboral. Para o protagonista, Yoo Man-su (um Lee Byung-hun fora da aura galã de outrora, completamente negligenciado nas nomeações oscarizadas), a sua felicidade manifesta-se no momento em que o materialismo e a concretização profissional, traduzida na esfera familiar, se conjugam numa harmonia perfeita. Daí a primeira sequência: um barbecue na sua invejável moradia, uma família próspera, dois cães brincando no jardim que ele próprio recriou, enguias para refeição, oferenda da empresa, e no meio um cartão com agradecimento por anos de serviço.
Um instante que lhe dá vontade de parar o tempo, solicitando à família um momento de comunhão, um abraço múltiplo e duradouro, cruzando olhares com o céu radioso … parafraseando outro filme que também explora a ideia de emprego como felicidade sintomática, só que de forma mais lamechas: “This part of my life… this part right here? This is called ‘happyness.’” (Will Smith em “The Pursuit of Happyness”, Gabriele Muccino, 2006). Esse sucesso materializado enquadra-se na concepção de felicidade, algo que poderia ser tanto uma mentira capitalista como uma meta inalcançável ou expressão da nossa conformação social: o eterno “o dinheiro não traz felicidade”, sermão repetido no quotidiano com ecos religiosos pelo meio. O resto é negro. Aliás, Chan Wook Park aqui retrocede no seu estilo, esquecendo que o virtuosismo romântico de “Decision to Leave” exige trabalho, enquanto o virtuosismo da violência e do caos continua a ser a sua imagem de marca.

Por cada momento lúdico, de certo caos pessoal contido como bonsai, surge a imagem-crítica do tema: homens desesperados por não conseguirem sustentar a família, numa sociedade que os vê como descartáveis, entrando também o termo de castas, como numa sequência em que Yoo Man-su vigia uma das suas vítimas (homem de família, pedigree empresarial, agora reduzido a staff de sapataria) e que, durante um serviço, vê a filha menor interromper o atendimento, provocando desagrado e indiferença do possível consumidor. O status, do patriarca impotente reduzido ao trabalho precário, revela a desonra nas sociedades tradicionais como também nas capitalistas (a base esteve presente desde então – será o capitalismo extensão do conservadorismo?).
Somos aquilo que trabalhamos, o emprego define-nos e define a percepção dos outros sobre nós. “No Other Choice” tem sumo suficiente para encher copos; é o nosso instantâneo em pó, e Chan-wook Park mostra-se um artesão da imagem e das suas conjugações, com dissolves e montagens paralelas que desafiam e, por vezes, se atrapalham virtuosidade técnica excessiva. Talvez seja o desejo do sul-coreano de atingir o patamar de conterrâneos seus, e não é por acaso que muita crítica yankee (e não só), dotado pela sua ignorância cinematográfica, o compara constantemente com “Parasite” de Bong Joon-ho, ignorando que ambos os realizadores (junto Kim Duk-Duk na equação) foram responsáveis pelo renascimento do cinema sul-coreano. Mas, como sempre, é o mercado que ordena, até mesmo naquilo que é dito e contido.

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