Produtoras portuguesas como pólos de criação estética endêmicas: seja a Terratreme, a funcionar à imagem dos seus fundadores, quase como uma comuna artística; seja a Bando à Parte, a operar sob idêntico estratagema (e poder-se-ia acrescentar muitas das produções de Paulo Branco, aqui uma só figura, o produtor, a servir de bússola formal das metragens). A juntar à equação, a Promenade, multiplataformíco, demonstrando que já não é apenas de cinema que vivem as produtoras audiovisuais, comete matrizes semelhantes ao procurar respeitar, como se de um código deontológico se tratasse, a estetização do seu fundador, Justin Amorim, cuja sua primeira longa-metragem dirigida, “Leviano”, aglomera esse “livro de estilo”: uma direcção artística que se apodera da imagem, exalta-se e expõe, sem receios, as suas excentricidades e a veia pop que daí germina.

Sob esse signo, se nos dissessem, antes de sabermos a que produtora pertence, que iria ser concebido um documentário sobre Maria Manuela Pinheiro Gomes, conhecida como Marie ou “La Vie de Marie“, estrela digital, facilmente o despacharíamos para a Promenade, casando naturalmente com o decorativismo e a excentricidade da persona. Eis, então, que chega “La Vie de Maria Manuela”, com assinatura de João Marques: um retalho da personagem, ela própria retalhada entre a persona virtual e o existencialismo de uma identidade em permanente busca. Tal como a protagonista, o filme reflecte sobre a normatividade social e a marginalização daqueles que não se enquadram nos “códigos de conduta”. Contudo, os discursos a essas problemáticas são levianas (leves demais, talvez) para sustentar uma hora e meia dedicada a Maria Manuela e a sua Terra do Nunca.

Permanece uma melancolia vasta no seu olhar, fora do cinzento estereotipado a dar lugar a solipsismos feitos, Marie refugia-se em cores múltiplas, quase Caran d’Ache, ou da infantilização do seu mundo, preservando uma inocência pré-fabricada e ostensiva, daí a pintura para a tela Promenade. É, porém, no não-dito que o tal manifesto melhor se entende (ela contra os “outros” que desejam a sua “integração): Maria Manuela cresceu num Portugal rural, no seio de uma família conservadora que viu na diferença da filha motivo de desaprovação, ampliado pelo falatório da aldeia, e desse contexto nasce uma estrela de TikTok (plataforma usada não apenas de exposição, mas de clarificação identitária) contaminando o seu quotidiano. Vemo-la, ouvimo-la aqui e ali, em pequenas falas dispersas, mas o discurso nunca é o verdadeiro centro formal do filme, mais fascinado pelo universo do seu objecto fílmico (o que, de resto, condiz com o ADN da produtora) do que pela tese que acarreta nas costuras.

Não restam dúvidas. É um filme Promenade, com certeza. Ninguém o deserdará dessa condição. Agora, se valeria a pena outro tratamento, tal mais desconstrutivo pela realidade vivida por Marie e o exterior que a demove … aí sim, seria um outro trabalho.

Deixe um comentário

Outras leituras