Aquilo que começou como um showcase, um gag horrífico de Pais Natais tratados como produtos exóticos, caçados, sujeitos a sigilos e a leis um tanto à “Gremlin” para se manterem mansos (leia-se domesticados) — “Rare Exports Inc.”, em 2003, e a “sequela” “The Official Rare Exports Inc. Safety Instructions 2005” — foi a tentativa de Jalmari Helander conquistar fundos para a sua ideia: um filme de terror com o Pai Natal enquanto figura antagónica, assombrosa, envolvido em folclore medievalista, diluída com um outro seu ego (ou contra-ego), o nefasto Krampus (segundo a mitologia do final de Dezembro, a entidade encarregue de castigar os mal-comportados).
Cinco anos depois do “livro de instruções” chega “Rare Exports: A Christmas Tale”, mantendo o elenco original e ecoando estéticas e ambições quase spielbergueanas. O início, antes mesmo da chegada do título, sopra na nossa fronte uma brisa nostálgica, funcionando como teaser de uma ameaça por vir. O que desconhecemos, ou fingimos desconhecer, é a existência de uma figura natalícia para lá de São Nicolau e da “propaganda capitalista iconizada pela Coca-Cola”: um monstro desvairado, raptor de crianças mal-comportadas, estripador de imorais. Ainda assim, trata-se de um filme fiel à norma nórdica (o eixo do Mar do Norte detém uma das mais curiosas e capaz sistemas produtivos dos mimetizadores do blockbuster americano da actualidade), cumpridor dos seus mais básicos e eficazes requisitos, uma produção que nunca se envergonha nem se coloca em bicos de pés perante indústrias mais massivas. Cinema de género ambicioso, sem dúvida, prometendo uma desconstrução dos signos festivos e do próprio filme de época, porém, Helander parece soprar fôlego prolongado sem nunca atingir verdadeira resistência. A piada das curtas originais reaparecem; “Rare Exports” deseja cumprir o prometido, mesmo sacrificando o horror sugerido, acelerando a narrativa e cedendo ao gag, talvez já com o desejo de uma continuação mais tresloucada.
É inevitável o diálogo com uma outra saga que brinca com géneros e composturas do cinema familiar, também ela marcada por dedadas de Spielberg no corpo: “Gremlins”. O primeiro, terror amenizado que criou novas classificações etárias; o segundo, “Gremlins 2: The New Batch” (novamente assinado por Joe Dante) a explodir em caos e delírio a sua própria premissa. Helander ainda não chegou a esse prometido desvario. Talvez agora, concluída a sua outra saga, a de “Sisu”, com o herói mudo da Segunda Guerra Mundial, protagonizado pelo aqui reciclado Jorma Tommila (quem diria que dali sairia uma old fashion figura de acção), esse passo esteja finalmente ao alcance.

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