A história de um “homem sem nome” que um bando de nazis, no lusco-fusco da Segunda Grande Guerra, se arrependeu por inteiro de azucrinar, conta agora com uma sequela, mais directa, depurada de nervos e gorduras, restando o essencial: aquilo que fez de “Sisu” um objeto de culto entre os aficionados da acção, neste renaissance do cinema físico à imagem das coreografias de “John Wick” ou da imposição de risco de Tom Cruise nos últimos “Mission: Impossible”. Não é referência lançada ao acaso, visto que o realizador do díptico sisudo, Jalmari Helander (“Rare Exports”), sempre manifestou influência das comédias slapstick de Buster Keaton na condução destes filmes, influência essa que, embora menos evidente, também percorre a saga de Ethan Hunt.
Contudo, “Sisu”, em qualquer capítulo, não detém pedigree genuinamente americano: nasce de uma coprodução, e a sua natureza mais vincada é finlandesa. O realizador é finlandês, os cenários também, e o contexto cultural e histórico encaixa sem esforço. A Finlândia tem, por fim, o seu action hero cinematográfico. Com este “2” (ou, assumindo o subtítulo internacional, “Road to Revenge”), avança-se na história e mudam-se inimigos, os tais alvos a abater. Deixamos os nazis e o prazer quase catártico da sua matança e passamos ao outro extremo: o Exército Vermelho, os soviéticos, liderados por um Stephen Lang de pronúncia e ressentimento duro, criaturas auto-caricaturais que amplificam o júbilo da sua aniquilação. Matar “russos” à porta finlandesa ecoa um medo actual, real: com o país de Putin e as constantes ameaças de trespassar território europeu, a Finlândia tem manifestado cedência a um engrossamento da sua militarização, com fins de proteger fronteiras com o inimigo à porta.
Em “Sisu 2”, esse medo traduz-se numa maratona de violência gratuita e mirabolante, sempre com o pé carregado num humor negro – “Unleash Hell” – , anuncia Lang com provocação e a convocatória de um exército destinado a impedir o nosso protagonista, lacónico (nem uma única palavra lhe sai da boca), pragmático, quase imortal (ou que “recusa morrer”, vai dar ao mesmo), o one-man army por excelência, uma figura com memórias vivas de John Rambo nas sequelas do ‘primeiro sangue’. O filme nasce desse sentimento de “roda no ar”: sem pretensões de profundidade, apostando num simplismo correcto e vigoroso, com um terceiro acto que orgulharia o italiano Enzo G. Castellari por momentos. Mesmo que os russos de “Sisu” não dancem acrobaticamente como os nazis de “Inglourious Basterds”, o bailado com a morte não reside aí; até porque esses abraços finais são de extrema unção, e igualmente antecedidos no grotesco do seu fascínio.
Nas indicações da acção: um filme médio, algo camp sem se aproximar intrinsecamente da paródia, exorcização de medos colectivos e sociais. Jalmari Helander regista um musculado e rigoroso primo da praticidade.

Deixe um comentário