Max Minghella, filho do oscarizado Anthony Minghella (“The English Patient”, “The Talented Mr. Ripley”), dá a sua segunda tacada na realização com “Shell” (seis anos após “Teen Spirit” com Elle Fanning): um objeto seguro da sua condição de cinema de género, sobre a decadência de Hollywood (que sempre existiu, não é doença recente) e as suas fontes secretas de juventude, esses segredos de carreiras eternizadas no grande ecrã e fora dele.
Seguimos Samantha Lake (Elisabeth Moss), uma actriz de televisão fracassada, cujos castings se tornam humilhações públicas, entre bullying sobre a idade e a aparência nada correspondente aos padrões projectados pela indústria. Desesperada, entrega-se aos serviços de uma empresa de intervenção estética, a tal Shell, para “rejuvenescer”. Os resultados são imediatos: uma nova primavera brota no seu rosto e, de súbito, a carreira moribunda floresce. Samantha aproxima-se então de Zoe Shannon (Kate Hudson), grande investidora da Shell e celebridade de topo. Mas o sonho hollywoodiano degrada-se quando o corpo de Samantha começa a alterar-se; efeitos secundários emergem e instala-se a suspeita.
“The Substance” outra vez? Antes disso, “Rejuvenatrix” (1988), série B de Brian Thomas Jones sobre uma actriz envelhecida que recorre a um cientista para recuperar a juventude e acaba num pesadelo monstruoso. Em “Shell”, o espírito de série-B está lá, não como gesto estético intencional, mas como reflexo das fragilidades do argumento e do orçamento que lhe “calhou na rifa”. Talvez sob um inicial engodo de projecção maior (sim, Moss fraudou-nos bem), o filme entende-se como um objeto mais desmiolado do que as ácidas golpadas desferidas em “The Substance”, parasitando-lhe a sombra e o brilho.
A juntar a este cocktail cosmético, temos Elizabeth Berkley como brinde, em modo vítima prima-donna a abrir o apetite antes dos créditos: uma evidente piscadela à cultura queer e aos devotos de trash waterianiano ou dos reality de Beverly Hills, bolhas comunitárias que respondem ao estímulo do algoritmos aqui concebido. Mas isto não é “Showgirls”, nem chega perto dessa oleosidade perfeita. No fim, “Shell” é isso: marca branca de uma fórmula já testada.

Deixe um comentário