Terror, thrillers e tudo o mais que é considerado, e tantas vezes relegado, a “cinema de género” são bem-vindos ao panorama português. Mesmo que os fracassos se acumulem, recordo: foi desta forma desengonçada que a espanhola Filmax avançou até aprimorar e alcançar uma das suas obras-mestras («[REC]», de Jaume Balagueró e Paco Plaza). Obviamente, a nossa… não-indústria de cinema ainda tem muita papa para tragar, e “Sombras” não será, certamente, o lançamento devido. 

Os requisitos básicos estão lá: ruralidade, uma casa remota, um clima de suspeita e monstros que metaforizam medos e ressentimentos. Victoria Guerra e Pedro Lacerda, casal de segredos, acolhem, a pedido de um amigo, uma criança durante uns dias (talvez demasiados). A convivência não será fácil, sobretudo entre a pequena e a personagem de Guerra, Marta (partilhando o nome com a boneca da “enfant”), cujo passado não distante remete a uma gravidez interrompida e uma maternidade negada do qual ainda recupera. Entretanto, durante a noite, uma criatura visita o domicílio: destrói, ameaça, semeia o pavor no casal e na sua hóspede. O que será? Porquê agora a vinda desta besta incógnita? 

A realização é de Jorge Cramez (“Capacete Dourado”, “Amor Amor”), cineasta de declarada devoção ao plano, e nisso, por mais que se verga, não se pode negar o direito de “Sombras” se apresentar com aprumo na planificação e num certo gosto pela estetização (em momentos existe um fenómeno lunar que tinge o plano). Contudo, esses visuais não ganham força suficiente para resgatar a obra da sua miserabilidade argumentativa. Talvez a anorexia do enredo fale por si: personagens reduzidas a meros sentimentos, servindo apenas a parábola que Cramez deseja construir. Soma-se a isso um desconsolo evidente na direcção de actores (ver Guerra Lacerda a fazer o que podem, quase esticando o material disponível, não é de todo glorificante). 

É um objecto reduzido à máxima da sua moral, e bem moralista até (existe a menção de imigrantes que de uma razão ou outra nada contribuem para a história, nem sequer em auferir-lhe importância político-social), e da mesma forma que começa, termina: na pura proeza do episódico, sem causas nem consequências. Ou seja, as lições deste universo foram bem estudadas; em teoria, está lá tudo – o terror como subtexto ou atalho para outro tópico, o respeito pelo fora de campo e pela sugestão – mas, na prática… ora, talvez para uma próxima.

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