Na tradição dos actores-realizadores que fazem das suas produções espelhos das próprias personasGianni di Gregorio insere-se de forma mais discreta do que o seu conterrâneo Nanni Moretti. Talvez a breve aparição em “Riso in bianco – Nanni Moretti atleta di se stesso”, de Marco Colli, o tenha alavancado para este gostinho de trabalho duplo de se filmar como a si mesmo.

Di Gregorio transforma esta saga não continuada (iniciado em “Pranzo di ferragosto”, 2008) numa espécie de posicionamento de lugar e tempo. Em “Come ti muovi, sbagli”, aborda a velhice com luvas algo burguesas: o descanso num apartamento ou o isolamento, seja social ou emocional; a família deixada para trás nas suas independências conquistadas; os romances que se vão e vêm ao ritmo do desbaratar da idade. É uma comédia sobre um eremita bibliófilo, apenas chamado de Professor (a tal personagem que prossegue na sua carreira frente e detrás das câmaras) escondido nas suas rotinas — do café às conversas banais com os parceiros de mesa — no desejo de escrever um novo ensaio. A casa, ocasionalmente cedida ao seu serviçal resmungão, torna-se abrigo das memórias e vivências acumuladas.

Mas tudo muda! A vida, para se idealizar, terá de se agilizar ou passar a segundo plano quando a filha (Greta Scarano), acompanhada dos netos, lhe bate à porta em busca de auxílio. O adultério do marido levou-os a porto seguro, mas à custa de achincalhar a vida do “pobre” ancião, conformado com a sua primavera tardia, tranquilidade “pelo cano abaixo”. A privacidade, o espaço e até os artefactos museológicos expostos em prateleiras são contestados e abalroados pelas novas prioridades familiares.

Come ti muovi, sbagli” parece, subtilmente, insinuar-se como gesto trocista ao conservadorismo que emerge de uma atitude tradicionalmente cristã: a família como tecto máximo da preservação religiosa e, hoje, bandeira de muito partidarismo e ideologias contrarrevolucionárias. Tudo isto é posto à prova na paciência de um velhote passivo. O lobo, por sua, “personagem acidental e misteriosa”, refém da mitologia do “solitário convicto”, nasce dessa colheita de individualismo e de isolamento voluntário, sem contudo mergulhar na sua degeneração social. Porque desejar “paz” poderá ser o ato mais egoísta do mundo nestas andanças do Humanismo, mas também o mais compreensível.

Gianni di Gregorio mantém-se fiel à sua contemporaneidade, constrói com isso um olhar invulgar ao seu estado … envelhecer tem destas ‘coisas’, requer uma força diferente, ou uma paciência de santo sem remédios à altura.

Deixe um comentário

Outras leituras