Existe necessidade de implementar uma entidade sobrenatural se o próprio conceito de “crianças sozinhas em casa” e a violência (física, verbal e psicológica) que poderá daí suscitar já falaria por si? Para Emilio Portes e o seu “No Dejes a los Niños Solos”, a resposta é afirmativa. Essa inserção abre duas vias que procuram atrair a grande audiência: a primeira, ser uma obra de género, navegando nessas mesmas águas — seja “catálogo de filme de terror”, seja outra variação; a segunda, essa fantasia nefasta acaba por desculpar a crueldade cometida entre irmãos, enfants que, sem a vigilância de um adulto, tentam erguer hierarquias quebradiças ou “um reino para lá de Nárnia”.
O filme de Portes tropeça nesse factor, ao preferir a desnecessidade de um elemento sobrenatural em vez de apostar num thriller mais terra-a-terra, com pertinências performativas e educativas (a construção de empatia em crianças é matéria de embalos científicos e filosóficos que o filme não procura seguir). Contudo, não lhe neguemos o ritmo: a condução que faz de cada sequência uma peça de dominó a encaminhar-se para o ‘grande’ twist; ou o humor leve, por vezes sarcástico, temperado com pitadas trocistas aqui e ali, em relação a todo este conceito de “crianças sozinhas perante a negligência dos pais”. Bem-haja também a presença de Ana Serradilla, a segurar o fio narrativo.
“No Dejes a los Niños Solos” é diversas vezes comparado com um “Home Alone” sem larápios molhados [“wet bandits”], mas com o seu quê de paranormal, exageros e crueldade a valer. O esforço e as tropeções parecem ofuscar o resultado.

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