Aquele sorriso … Aquele sorriso era uma anomalia, uma anomalia sintetizada perante o absurdo que a envolvia. “Pára dizer normal. Não é normal”, pede do outro lado a cineasta iraniana Sepideh Farsi, já cansada da constante “normalização” acompanhada sempre por aquele mesmo sorriso de dentes cintilantes e por um olhar, por vezes reprimido, de tons esverdeados. O “normal”, a resposta definitiva, surgia invariavelmente à pergunta de Sepideh, em videochamada para Gaza, com a jovem de 24 anos Fatima Hassouna a testemunhar os horrores vividos. “Normal”, dito com uma leveza aterradora perante a constatação de vizinhos bombardeados pelas forças israelitas, da família morta, dos horrores que para muitos seriam simplesmente “anormais”.

Mas a normalidade estava lá, e não apenas nas palavras como consolação, quase de pavio curto, pragmáticas, como se o assunto não fosse o centro daquelas imensas conversas. Conversas nas quais Fatima prestava afectivamente, nelas se sentia fora do seu cerco solitário, sonhando com a possibilidade de um mundo lá fora, distante dos bombardeamentos, dos assaltos de última hora, dos escombros, dos cadáveres, da poeira, e do incómodo barulho de drones e apaches, “passeando” nos céus como aves de rapina.

A “normalidade” perante aquele cenário ia além das chamadas de longa duração, sempre sorridente é certo. Estava também nas fotografias que partilhava com Sepideh, como um presente vindo da outra fronteira: nelas via-se destruição, desolação, desumanidade, impressas com essa mesma “normalidade”. Eram fotografias que não procuravam denúncia, nem apelo à consciência, nem sequer o sensacionalismo de uma tragédia. Não. Nessas imagens havia apenas a “Normalidade”, a resignação de um olhar voltado para as ruínas de um território (e sua gente) reduzido a um eventual Nada. 

Mas o sorriso manteve-se até à última cena, à última conversa (um sintoma de aceitação da sua própria desgraça, nada de jubilante escondia nessa expressão). A 15 de Abril de 2025, Sepideh conseguiu transformar aqueles momentos em filme – “Put your Soul on Your Hand and Walk” (com base numa ‘expressão’ utilizada pela própria Fatima numa das enésimas conversas) – e por sua vez garantir lugar na programação de um, senão do maior Festival de Cinema do Mundo: Cannes (na secção ACID). A notícia foi recebida com o sorriso mais sincero de todo o catálogo de sorrisos de Fatima. Já não era mera defesa, nem ostentação da “banalização da sua desgraça”. Foi seguido de uma euforia: o esperado convite — “Dá-me o teu passaporte, vens a Cannes para apresentar o filme”.

Naquele rosto … um belo rosto que progressivamente denunciava os sinais de deterioração … emergiu a felicidade, o momento que esperava sem saber. Alegria! Para o espectador, não o será. A chamada termina. Entra em cena o cartão há muito antecipado: na madrugada de 16 de Abril (apenas no dia seguinte), Fatima e a sua família foram mortas num ataque relâmpago das tropas israelitas, ou melhor, sem meias palavras: foram assassinados. O coração aperta. Os créditos finais ocupam a sala.

Sai-se da projeção. Entra-se no mundo exterior. No caminho, cruzam-se as caras macambúzias, fechadas, melancólicas, dos lisboetas que apanham os seus transportes: uns regressam a casa, outros entram nos turnos nocturnos. Trabalho e trabalho. Rotina. Um cansaço desmedido e visível. Nesses rostos, nota-se uma desgraça acumulada, mas eu só penso naquele sorriso. Perante uma desgraça maior que a nossa, o privilégio (sem o usar como nefasta condição banalizada pelos discursos propagandeados) não é, por vezes, reconhecido, é um conforto, uma ‘sorte’, e mesmo assim sentimos, com todo o respeito, um luto eterno.

Em Gaza, através daquela janela aberta por Fatima, vi um sorriso. O único que lhe restava enquanto humana.

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