Apesar da hegemonia mediática do genocídio (sim, a palavra é política, mas de uso correcto) palestiniano, a guerra na Ucrânia ainda acontece no horizonte. Talvez por via da sua ‘frescura’, grande parte do que nos chega em conteúdo documental são despachos com o intuito de exaltar a causa e a resistência ucraniana contra um inimigo que é Grande, seja em território, poder bélico ou em infantaria. De facto, muitos desses filmes não são interessantes do ponto de vista cinematográfico. Cedem ao facilmente ao seu próprio propagandismo: engrandecem a resiliência do seu povo ou expõem a miserabilidade a que hoje estão submetidos, testes de consciência ou apelos.
Mas no MDOC 2025 houve um ‘insider’ do lado inimigo do Ocidente. Da Rússia, deparamo-nos com Pavel Talankin, que nos avisa desde cedo: sempre se sentiu diferente dos outros homens da sua pacata cidade, junto aos Montes Urais. Talvez delicado demais, ou simplesmente dotado de um faro para mudanças inconvenientes. Jovem professor, testemunhou, a partir da data de 22 de Fevereiro de 2022 (a oficialização do conflito armado), a infiltração da propaganda político-bélica nas suas aulas — recitações patrióticas, história soviética revisada, apelos à morte pela Pátria, e com todos os descaramentos que isso traz, a presença dos mercenários [Grupo Wagner] em missão de “educação”. Assim se convertem alunos, rebentos de um futuro promissor, em “carne para canhão” num conflito de ditames: “desmilitarização e desnazificação”.
As imagens desta transição foram recolhidas clandestinamente por Talankin, e, com a sua fuga do país que prometia conhecer de ginjeira, constrói este documentário (supervisionado pelo americano David Borenstein) sobre a sua experiência que não é mais do que um retrato de uma Nação dedicada ao seu poderio e aos passados saudosos. “Mr. Nobody Against Putin” entra no vasto lote de obras geradas pela guerra Ucrânia-Rússia, mas, ao contrário do muito que se vê do lado ucraniano — onde muitos filmes resultam de um desespero genuíno e da necessidade de sensibilizar para a causa, numa espécie de cinema de guerrilha —, o infiltrado, o “traidor”, reflete-se, incontestavelmente, numa elegia à Mãe-Rússia, aos “filhos” sacrificados, e à desfragmentação social que o jovem professor observa, impotente.
Há um foro emocional, de primeira pessoa, que o agora activista explicita com clareza. Mais do que denúncia ou desumanização do outro, Talankin olha à volta e vê um país entorpecido, sem um pingo de raiva nem de repúdio. Refere o seu colega de História, completamente vidrado nos mitos dos metralhas de Estaline: “vítima de uma lavagem cerebral”. A propaganda em plena operação, e a recompensa, um apartamento de luxo como prova dos serviços prestados a doutrinar os seus alunos. Não há monstros nesta Terra de Putin. Há juventude iludida, velhos castigados por memórias vendidas (o olhar despedida da mãe, que silenciosamente identifica o ‘adeus’ censurado do seu filho), e umas quantas lições a serem dadas com o maniqueísmo no centro. “Vocês vão morrer, mas não se esqueçam: as vossas campas terão flores durante séculos. A Pátria nunca vos esquecerá.“

Filmou-se uma guerra à distância, no quartel-general da massa humana. “Mr. Nobody Against Putin” poderá não ser o exemplar mais gratificante na estética bélico-documental que vivemos, subjuga-se à palavra do “eu” como conexão ao espectador. Contudo, não nos limitarmos à Rússia, há em neste relato documental algo que podemos associar na apropriação propagandista ao vivo, e quem sabe, já estar em curso em outros territórios.
Quanto a Talankin o filme desfecha com a promessa da sua segurança … devemos acreditar nisso? Ou o poderemos encarar como um homem identitariamente fragmentado?

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