Nas ruínas de uma cidade, entre o “fingimento” de quem ainda conduz o seu quotidiano como réstia da Humanidade que lhe sobra, a História não parece entender-se. “My Memory is Full of Ghosts”, do palestiniano radicado na Síria, Anas Zawahri, é o auto-retrato de gente com relatos para entregar como munição a uma cidade síria, hoje quase imaginária — Homs — que, respeitando a condição actual do país (desalmado na abstracção da sua castradora realidade) é o “e se” metropolitano: uma alternativa arquitectónica onde uma sociedade prosperaria no limiar do sonho ocidental e da identidade oriental. O filme ressoa nesses espaços vazios, nessas pessoas disponíveis e aptas para contar o que se deu, na absurdidade do que se dá, juntando-se a uma coralidade que, como mosaico, recompõe um painel: a guerra das guerras, a tragédia embebida nessa impregnada melancolia.

Visto em Melgaço, no Festival Internacional de Documentário, nas encostas com Galiza, ou parcialmente citando um certo Manoel de Oliveira filmado por estas bandas “O Princípio do Mundo”, falou-se, em tertúlias acidentais, de outros “affairs” e de outras passagens (ou paisagens) fílmicas. Alguém evocava, por outros motivos (mais autobiográficos até) a influência de “Ruínas”, de Manuel Mozos (o realizador a vaguear no festival, naquele momento integrado numa das mesas de esplanada da Casa da Cultura do município, aguardando pela próxima sessão de cinema) na sua vida biblio-cinematográfica, e de como esse filme, através do destroçado e do ruinoso, emanava o encantatório de uma projecção: o que teria sido, o que teria palmilhado, que guarda aqueles rastos da decadência? A regra é de ouro e inevitável: da criação vem sempre a destruição, e, porventura, o esquecimento (“o tempo destroi tudo”, já dizia o outro que vocês bem sabem quem é), e, tal como o esforço hercúleo de “Ruínas” (2009) em revitalizar uma memória, Zawahri faz o mesmo, contando com os esforços e a vontade de uma população condenada ao seu limbo.

É cinema do relato, da imagem em falta e da memória que calha. O arquivo fílmico de testemunhos e testamentos, dos “dias melhores” que vieram e daqueles que nunca viram. Sim, o pessimismo perdura, há que manter a serenidade para com e o aonde chegamos. “My Memory is Full of Ghosts” pede a outros, aos de contacto cheio com a realidade, a veracidade do seu ambiente e não a instrumentalização oposta.

Deixe um comentário

Outras leituras