Nunca o som de uma motosserra foi tão aterrador! No início dos anos 60, Alfred Hitchcock trouxe ao cinema uma figura até então pouco explorada (sugerida, mas nunca assumida), mas que, com o tempo, se tornaria peça central na ficção: o psicopata. “Psycho” (1960), uma das suas obras-primas do suspense à lá Hitchcock, apresentaria Norman Bates (Anthony Perkins), um assassino travestido, assombrado pelos fantasmas de um passado opressivo e moldado por uma educação castradora. Inspirado, ainda que livremente, no infame assassino do Wisconsin, Ed Gein (1906 – 1984), Norman foi apenas o formalmente “primeiro” de muitos. A história de Gein serviria de base não só para Hannibal Lecter, a criação literária de Thomas Harris, mas também para a criação de um dos ícones mais perturbadores do terror moderno: Leatherface, o “rosto” macabro de “The Texas Chainsaw Massacre” (1974), de Tobe Hooper.
Ainda hoje um das obras de terror mais influentes de sempre, “O Massacre no Texas” (título traduzido) foi pioneiro na violência gráfica, elevando o terror a um novo patamar. Produzido de forma independente com um orçamento reduzido de apenas 15 mil dólares, chocou uma geração e redefiniu o género, consolidando o subgénero do road trip horror movie. Mesmo hoje, continua a ser uma referência incessantemente imitada. O filme de Hooper é um verdadeiro pesadelo capturado em película, a sua estética crua e de baixo custo reforça a sensação de realismo e degradação, nasty até, enquanto a narrativa fareja os arquétipos do documental, tudo em nome da credibilidade possível, conduzindo o espectador a uma experiência exaustiva e opressiva. Mais do que um mero exercício de terror, “The Texas Chainsaw Massacre” funciona como uma incursão à mente de um psicopata, expondo uma loucura descontrolada e visceral, sem nunca subestimar a disfuncionalidade familiar nas caudas dos devaneios violentamente glorificados.
No coração desta história está uma família de maníacos consanguíneos, de sotaque cerrado e completamente insanos e para piorar o retrato, canibais. Dentro deste lar desestruturado, emerge Leatherface (Gunnar Hansen), o grande psicopata / assassino do filme, uma evolução das arestas afiadas por Hitchcock. Munido da sua icónica serra elétrica e oculto por uma máscara contrafaturado por pele humana, Leatherface tornou-se uma das imagens mais aterradoras da história do terror moderno. Inspirado no caso real de Ed Gein, ele é o pior pesadelo dos cinco jovens que, numa simples viagem de carrinha pelo Texas, se deparam com armadilhas mortais e cadáveres profanados, expostos como grotescos espantalhos. Ponto curioso da narrativa: segundo a lei texana, o facto destes jovens “invadirem” propriedade privada, não ilegaliza de modo nenhum, as obscenidades e morbidez lhes infligida pelos antagonistas [os habitantes].

“The Texas Chainsaw Massacre” rapidamente conquistou o estatuto de culto e foi até homenageado na “Quinzena dos Realizadores” do Festival de Cannes. Com uma receita superior a 100 milhões de dólares a nível mundial, manteve-se durante anos como o filme independente mais rentável da história. Mas o seu maior legado não está nos números: Tobe Hooper inscreveu-se nos anais do cinema ao transformar radicalmente o género, hoje deparamos “Texas Chainsaw Massacre” nas mais inevitáveis homenagens, sequelas, remakes (o de 2003 sob a batuta de Marcus Nispel tem o seu valor, mas também a sua inutilidade), variações ou imitações, das mais certeiras talvez Rob Zombie, convicto fã e nisso nota-se nos seu “House of 1000 Corpses” (2003) e da fuga originária em continuações tão ou menos bem-sucedidas.
Quanto a Hooper, ainda voltou ao universo com uma sequela hilariante (1986), em contrapondo com o ambiente da sua criação original, não rendendo os meus resultados, tentou outros ares, trabalhou com Spielberg em “Poltergeist”, com alguns conflitos pelo meio, e desde o fim dos seus dias operou com produtos menores, por vezes reavaliados na sua sombra autoral. Mas inevitavelmente foi com “Texas Chainsaw Massacre” que levou para a tumba, bem “agarradinho” e com bastante afecto. Sendo quase impossível imaginar o horror moderno sem este ensaio brutal sobre o medo. O do desconhecido, o do rural e o da marginalidade.

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