De certo modo, o destino dos palestinianos passa por acabarem, não onde começaram, mas sim num qualquer lugar inesperado e longínquo

Edward Said (1935-2003)

Sobre a Palestina, muitos lutarão, muitos gritarão, muitos levarão a palma da mão ao peito e jurarão pela sua integridade. Outros agarrá-la-ão, como se impedissem o coração de fugir da caixa torácica, evasão à passividade com que se testemunha, em direto, 24 horas por dia, um genocídio. Outros, fazendo da “caixinha mágica” e do espaço do seu comentarismo palco, desconstruirão a palavra em voga: “Genocídio é exagerado!”, puxando os galões do privilégio de sofá, enquanto jornais referenciados lhes oferecem espaço para defenderem uma ideia de Estado, custe o que custar.

Em Shoah criou a sua palavra de extermínio. “Holocausto” foi a escolhida apropriação. Única, sem tradução, intransmissível. O restante, de arménios a ruandeses, da Bósnia-Herzogovina a outras paragens, ficou com “genocídio”, palavra partilhada. Mas que será da extinção de um povo? Os palestinianos, é certo, não terão mais o seu lugar, a sua identidade, porém, talvez seja esse o derradeiro tesouro: a possibilidade de um novo meio apátrida, que, junto dos curdos, represente a identidade sem Nação, sem cultura, sem vestígios. Muito se falou, fala-se e falar-se-á sobre a Palestina. Serão imensos os filmes que ressurgirão desses escombros: documentários, dramas denunciantes, artistas exaltados pelo seu histórico de miséria, alguns com mérito, outros oscarizados, outros ainda que, como um beijo traiçoeiro, nos sufocam, retiram-nos as palavras que deveriam ser dirigidas, deixam-nos mudos e reféns do nosso próprio choque.

Portanto, em todo este contexto com que lidamos (ou ignoramos), é difícil referir Elia Suleiman neste quadrante, até porque hoje, fora a sua identidade, é considerado um “palestiniano safo” e, novamente, a palavra nefasta: “privilegiado”. No entanto, no seu último trabalho, It Must Be Heaven, a sua persona tatinesca, de passo em passo, cidade após cidade neste canto continental, encarna uma montra identitária sem correspondência, uma espécie de unicórnio cuja única oração se dá para responder a um taxista nova-iorquino “abelhudo”, perante a desarmante pergunta: “De onde é?”. “Sou Palestiniano!”, responde, seguido da reacção mais surpreendida do seu motorista alugado. O extermínio não começou ontem. O encontro com este cineasta, em 2019 (éramos tão felizes nessa altura e não sabíamos), já pressentia essa perda materializada da Palestina. A convivência entre dois Estados é fantasia. Suleiman subscrevia, em pleno: a identidade ambulante era a única coisa que restava.

Mahdi Fleifel, por sua vez, é um Colosso de Rodes, tem um pé em cada margem, ora dinamarquês, ora palestiniano, mas é nesta última que se ancora o seu B.I., como forma de prolongar, ao máximo, essa existência. “To a Land Unknown” é esse testemunho ficcionado, e também desafio: falar da Palestina sem Palestina, na voz de dois refugiados (Mahmood Bakri e Aram Sabbah) que deambulam por Atenas com o sonho de chegar a uma Europa mais Europa possível, segundo a ideia projectada dessa União europeísta. É Berlim que ambicionam. Abrir um restaurante, delirar com uma vida aparentemente aceitável e aceite, mas … permanecem em Atenas, com esquemas, pequenos furtos, tudo o que possam fazer para angariar dinheiro para novas identidades. Identidades que não sejam palestinas, até porque ninguém quer realmente saber deles. 

Filmado a frio, sem vitimização, nem maniqueismos “queridos”, na crueza de um realismo desencantado, o único encanto reside na fantasia trazida pelos protagonistas, para lá do lugar, para lá do tempo, na conquista de um estado estagnado que vivam conforme o enriquecido. “To a Land Unknown” foca-se nessa identidade líquida, nesse registo e no que dele resta. Enquanto isso, a movimentação, os indivíduos, os corpos alheios à empatia talvez apenas convoquem a do espectador, “capturado” e testado desse modo. Mais do que filmes no terreno, Fleifel aborda a Palestina sem nunca nela pisar. Filmicamente, evoca o neorrealismo face a um possível miserabilismo, pois em dois momentos, como em “Ladri di Biciclette” de Sica, surgem os devidos twists da situação degenerada dos protagonistas. O intermezzo (uma failsafe do sonho concretizado introduzido naquele plano lusco-fusco no alto de Atenas) e aquele final que entala o coração de uma só vez … aí, por via de certa perversidade do realizador, o encanto manifesta-se: uma viagem feita Caronte para o lado de lá.

E como a condição apátrida nos leva a esses caminhos melindrosos, do mal ao menos, do bom ao mais, vemo-nos reduzidos a esse estatuto, sem mais apegos, sem retorno. Obra dura, primeira longa até, de fazer corar quem julga ter o direito de abordar a literalidade como único dialecto. Falou-se do palestiniano, viu-se palestinianos, calaram-se privilégios, e aproximámo-nos, mais e mais, daquilo que nos detém, ou do lugar para onde a passividade nos arrasta. Como Elia Suleiman, é dizer sem medo: “Sou Palestiniano!

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