Consigo ver um filme em tudo isto, não querendo dizer que o filme não exista, mas a matéria trazida pelo homónimo livro da escritora Azar Nafisi (“Reading Lolita in Tehran”), uma revisitação de memórias autobiográficas através dos livros predilectos e estudados pela autora (incluindo a obra de Nabokov, presente no título), resulta, nesta co-produção ítalo-israelita, numa visão pouco consequente e centrada em demasia na figura protagonista.

Aqui interpretada pela atriz iraniana Golshifteh Farahani (que muitos recordarão com carinho em “Paterson”, de Jim Jarmusch, mas que, fora isso, foi em tempos um dos rostos mais afirmados do novo cinema iraniano e dos autores que hoje vigoram), Azar é uma professora de língua inglesa que regressa ao Irão revolucionário sob promessas de uma nova Nação. No entanto, o que encontra é um país dividido, com uma força islâmica dominante que vai penetrando a sociedade e a vai configurando. Ao longo dos anos, esse “Irão, meu amor” será o paraíso de outros, impedindo Azar de prosseguir com as suas aulas. A solução? Um “clube de leitura” clandestino, onde antigas alunas, mulheres consumidas por esse turbilhão político-social, despidas da sua humanidade e convertidas em símbolos de uma resistência silenciosa. O grupo reúne-se para discutir livros, autores, direitos desejados e manifestar as suas lágrimas pelo Irão que cada vez desconhecem. Seria um “Clube de Poetisas Mortas”, se o filme não detivesse uma certa miopia e se conseguisse construir, a partir desse subenredo, um lado verdadeiramente coral.

As ideias surgem como meras exposições estacadas, e as personagens que vão aparecendo nunca estremecem a sua posição de motivador da protagonista. Não quebram a carapaça de letargia que as envolve, e esse dito filme — o que poderia ter sido — está lá, algures, perdido entre estereótipos e uma adaptação “bonita”, onde poucos momentos fazem acreditar que a leitura não está já banalizada ou academizada ou que não se remete à procura de um novo “Persepolis”.

Veja-se a transfiguração da fachada universitária, com mensagens de ódio à América que dão lugar, subtilmente, a slogans revolucionários quase ditatoriais, orwellianos. A ideia esgota-se após dois saltos temporais. Ou no “e se”, esse Irão alternativo que Azar imagina com o seu amigo e colega de causa, após mais um rotineiro tráfico de livros proibidos, ali há pontos de fuga, possíveis direções por onde a obra poderia reencontrar a sua alma. Mas o realizador israelita Eran Riklis (“The Syrian Bride”) apropria-se da história e transforma-a numa inserção mais panfletária do que declaradamente humana. Por vezes, ser-se humano é, também, ser-se político.

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