Os contextos funerários falam nos muito mais dos vivo do que dos mortos”
A imagem que falta! Tal como Rithy Panh em grande parte da sua obra, marcada pela impossibilidade de reconstituição ou pela inatingível natureza da matéria evocada, encontrou alternativas em maquetes, desenhos ou fotografias (no caso da sua ficção “Rendez-vous avec Pol Pot“) para transmitir a mensagem, seja ela cognitiva, emotiva ou política, sem recorrer à literalidade imagética. Trata-se de um gesto criativo que se afasta da mimese tradicional e inscreve-se numa lógica de resistência à representação direta. Contudo, esse mesmo “desenrasque” que Dulce Fernandes intenciona em “Contos do Esquecimento“, onde, após a descoberta de uma vala comum de escravos em Lagos (datada do séc. XV), decide narrar a história dos olvidados, contextualizando-a num tempo colonial em que as castas, a lógica nefasta entre humanos e sub-humanos, se faziam sentir nas correntes transatlânticas dos primeiros ensaios capitalistas.

Contudo, a criatividade do cineasta cambojano não encontra lugar no exercício de Fernandes. O que se impõe aqui é outra frente, outro fronte: o vazio deixado por esta história de gente sem lugar nem fala materializa-se como eco. Somos então, enquanto espectadores, informados do sucedido por letreiros, alguns documentos que surgem no nosso campo de visão, palavras aguçadas às sensibilidades modernas. A realizadora deixa-nos entregues à nossa própria reflexão, acompanhados pelas imagens que consegue alcançar, todas elas motivadas por essa desumanização. Não há homens, nem mulheres, nas imagens que nos são apresentadas: apenas horizontes, zénites, chão. Um tanto de James Benning aqui, um tanto de preguiça acolá, com muito auxílio dos “malditos drones”.

A intenção de perpetuar uma memória sem a desfazer, reverter ou sequer reinterpretar é digna de respeito. Porém, mesmo os silêncios que nos são ocasionalmente lançados pela negligência da nossa história (apenas repartidos pela voz-off que vez em quanto marca a sua presença), e que visam relembrá-la sem panfletarismos, não receberam o melhor tratamento estético. O slow cinema de vanguarda, mas sem o progresso da mesma, guia-nos para um “filme de imagem em falta” não enquanto gesto radical ou estético, mas como resultado de uma estratégia incompleta.
Para perdurar, é necessário mais do que apenas contemplar.

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