Claramente inspirado pela migração de Madonna para Lisboa (e pelo tratamento quase exclusivo e prestigiante que lhe foi dado, revelando uma distância, seja cultural ou social, em relação à cidade) “C’est Pas la Vie en Rose”, longa-metragem de Leonor Bettencourt Loureiro, responde com sarcasmo e lucidez através do formato mockumentário, aludindo a uma fictícia banda francesa que se apropria da capital. Descrita desde o início como um “vampiro”, entre risinhos e copos de álcool chique nos habituais “beberetes sociais”, a banda simboliza um fenómeno muito real: a gentrificação e a ascensão dos chamados “lisboetas de primeira”, impulsionados por políticas autárquicas recentes e, mais amplamente, por um frenesim global do Ocidente contemporâneo.

Lisboa surge como cidade cool e “timeoutizada”, moldada a um ideal turístico e cosmopolita, enquanto o resto — a órbita que envolve a banda: casais tóxicos, divas decadentes, destruição, queerbaiting, elitismos, entre outros  — representa o desgaste anunciado. A mensagem é clara, o ativismo evidente no seio da paródia, no entanto, ao filme falta mais do que boas intenções: falta-lhe acidez, profundidade contextual e, sobretudo, a ousadia de sair do seu próprio umbigo. O discurso aspira ao combate, numa jigajoga de um humor ressentido e do acenar de bandeirinhas dos seus ativismos, estruturado numa estética superficial do reality show ou do fugaz do lixo televisivo (MTV contemporânea?). Esta escolha, em si, não é um problema, adapta-se à lógica do pastiche e da crítica feita por dentro da própria forma, acabando por funcionar, como muitas sátiras, na apropriação do modelo em que satira.

Existe uma presença marcante de um universo queer urbano que, embora legítimo, tende a reduzir Lisboa a uma identidade única, impedindo os problemas sociais abordados, da habitação à precariedade, ir além de qualquer comunidade específica. Essa focalização exclusiva cria um certo fechamento, um sabor a precedência e a “first world problems” que, em vez de reforçar a crítica social, a enfraquece. Aponta-se o dedo ao privilégio dos outros, sem reconhecer que o próprio retrato em cena é, ele mesmo, privilegiado e por vezes sobranceiro. E nota-se, por exemplo, pela participação em modo cameo de Jessica Athayde, surgindo como ela própria, a lançar sermões sobre a situação vivente da capital, acentuando ainda mais essa bolha social de onde o filme fala. “C’est Pas la Vie en Rose” não falha na sua intenção, mas fraqueja na forma como constrói o seu discurso … aliás vários discursos num só.

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