“A vida é a arte do encontro embora haja muitos desencontros”
António-Pedro (“Carta Branca”), autoproclamado artista multidisciplinar, concebe “Mississipis” como apêndice da sua trajetória artística, uma derivação do projecto “A Viagem”, peça itinerante que cruza dança contemporânea com a tradicional, recriada no interior do país com performistas amadores, “gente da terra”, cujo empenho há de contagiar os seus respectivos quotidianos.
Sem mais demoras, a articulação entre as duas plataformas, não se traduz. A longa-metragem não se aproxima em nada do seu autónomo registo, mesmo que António-Pedro tente fazer dessa bandeja o seu prato intimista, com recortes e recuerdos, para depois seguir na capacidade da sua trupe rumo ao espectáculo que se adivinha. Documentário ou acessório, o espectador interpretará como quiser, da minha parte encaro-o como uma espécie de making-of intrometido no recreio cultural espelhado. Sendo assim, é do Cinema que se deposita não só uma definição, mas múltiplas, sendo que essa subserviência do meio perante o outro me provoque alguma espécie de urticária, (talvez alheia à forma como as imagens são apresentadas ou à estética, por vezes eclética, que se adequa ao contexto momentâneo).
Porém, damos de ‘caras’ com um beco sem saída: a estratégia final tem dois gumes. O primeiro é de nunca nos levar diretamente ao produto final [a peça], acompanhamos a preparação e dos bastidores não saímos. Por outro lado, isso mesmo, o espectáculo em palco declara a sua independência em relação ao Cinema, e por sua vez, o Cinema reduz-se ao estatuto de subordinado. Portanto, não é bem um encontro que vemos, e antes uma função, um dispositivo, uma missão para que a “cria” acerte no seu primeiro voo emancipadamente.
Dois “mississipis”: o esforço vale, o planeamento podia ser outro.

Deixe um comentário