Na cavalgada da contemporaneidade, assistimos a um absoluto culminar da constante desconfiança nas instituições federais ou estaduais — um simples sentimento conspirativo, alimentado vezes sem conta pelos media e pelo ócio, e o cinema não escapa incólume aos pingos desta chuva. Não é fenómeno de ontem, é certo, e os thrillers que nos chegavam nos idos dos anos 70 já vinham com essa inquietação. Não é pormenor: Vietname, Watergate e outros episódios que se sussurravam nas ruas ou se liam nos jornais como revelações de um sistema abalado, semearam gerações de descrentes quanto ao seu próprio sistema. Até aos dias de hoje, questionar órgãos de Poder deixou de ser apenas prática política — tornou-se também prática comercial. O cinema fez a sua parte: transformou o subgénero thriller de espionagem na sua vanguarda, a distopia na sua arma de arremesso, e nos solos yankees, a política como o abutre dessa não-exatidão.

Talvez seja por isso que um filme como The Amateur, baseado no homónimo livro de Robert Littell (que por sua vez já obteve versão em 1981, por Charles Jarrott), tenha sido vendido, em plena escassez da produção hollywoodesca e em território Trump, como um grande lançamento, e é aí que se comete o erro (e talvez também a virtude) de lançar um thriller de efeitos globalistas: esquemático, previsível, e pouco arquitectado em torno de um descodificador de agência, Rami Malek, de olhar alucinado, uma espécie de Jason Bourne autista, submetido voluntariamente a um treino dignos de operativos da CIA para vingar a morte da sua mulher, vítima de um ataque terrorista em Londres. O seu mentor nada mais nada menos que Laurence Fishburne, sem pílulas, e novamente encarregada de trazer a “realidade” dura e crua ao seu discípulo.

É um objecto irrisório, tecido nesse efeito embebido na paranoia em relação às instituições (o próprio protagonista é, na sua essência, um desconfiado por natureza, ainda no processo de decidir em qual dos noticiários confiar, por exemplo) — numa espécie de efeito-Matrix sobre a realidade com que lidamos diariamente — mera farsa para batalhas campais e interesses obscuros. Por outro lado, é precisamente nessa escassez que um thriller desta dimensão adquire o seu tão procurado holofote — nem que seja para induzir um proustiano prato mal amanhado de evocação de Three Days of the Condor e toda essa vaga contaminada.

Mau timing, talvez … e, ao mesmo tempo, bom. No último ponto, a sua desconfiança crónica leva-nos a nós, europeus, a reger opiniões formadas e confirmadas sobre o seu anterior aliado. No dito mau timing, reside essa novelização e romantização do bem contra o mal, onde o triunfo do justo se consuma num final ingénuo, a condizer com a fantasia que Hollywood tanto deseja ser.

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