A linguagem como ato político! Talvez seja nesta temática e no linguajar com o qual se constrói uma narrativa com todos os ingredientes de “underdog”, num misto de estéticas que evocam a malandrice irrequieta de Guy Ritchie na sua terra natal ou o caos encavalitado de “Trainspotting“, de Danny Boyle. “Kneecap” dita e exalta esse orgulho regional da Irlanda do Norte, tornando Belfast não apenas na cidade dos sonhos cinematográficos de Kenneth Branagh, mas também um palco de revoluções contemporâneas. Parte do ilícito e do arrojo de gueto para encontrar valor na língua gaélica—com status protegido e direito de existência e promoção aprovado em 2022—e no seu uso como afronta ao imperialismo entranhado da Coroa Britânica.
É dessa insubmissão que rumina a revolta, o espírito libertino e anti-sistema que esta metragem de Rich Peppiatt assume sem nunca o largar, nem o expandir para além do assunto de bairro. Faz-se ouvir a música, num rap extravagante e chanfrado de uma banda de sucesso originária naquelas localidades, a estranheza desse dialecto céltico e a cultura da linguagem indígena não apenas como preservação antropológica ou curiosidade etnográfica, mas também como virtuosa força de uma identidade colectiva. Um povo interliga-se pela sua cultura, e, acima de tudo, pela sua língua, ponto primordial dessa união em tempos de globalização.
“Kneecap” faz dessa cantoria um discurso bem falado, ainda que enquanto filme, perde-se casualmente na sua própria sabichonice e nas tendências estéticas alicerçada à sua suburbanização, como se o gueto e correspondente guetização tivessem uma única forma de ser filmados e captados no grande ecrã para gosto do grande público. Biopic de provocação sem a devida forma distinta.

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