Silencio, No hay banda!
… e agora? Quem nos dirá o tempo?
Quem interrogará o primata até sabermos o que Jack realmente fez?
Quem nos aterrorizará com prematuros fetosos ou bochechas gigamórficas?
Quem nos conduzirá pela rota das especiarias de Arrakis, ouvindo pensamentos e a salivar por Sting emergindo de vapores?
Quem poderá decifrar o mistério daquele tronco?
Onde está Laura Palmer?
Porquê que David Bowie desapareceu num estalar de dedos?
Porque ninguém o ouve?
Quem nos elucidará sobre as perversidades atrás das cortinas e dos veludos azuis?
Quem nos ensinará o que é ser humano, mesmo que as feições sejam monstruosas?
Quem criará coelhos antropomórficos e os soltará numa Hollywood incendiada pelas mais nefastas coincidências?
De que tem medo Laura Dern?
Quem se esconde no beco do dinner?
O que têm em comum cowboys e franceses?
O que está na caixa?
Para onde nos leva a estrada perdida?
Seguindo em frente, alcançaremos a felicidade?
Enigmas para os quais não desejo respostas. Desejo apenas que se mantenham como tais, enigmas. Eternos enigmas. Porque Lynch, um dos senhores absolutos da minha cinefilia (se tivesse cinco euros por cada vez que vi “Mulholland Drive“, conseguiria pagar um jantar a uma equipa de futebol no Gambrinos), preencheu o meu mundo com tais mistérios. Foi com ele que, em tenra idade, descobri que o cinema não era em linha recta. Era algo além da compreensão imediata, um território onde nem todas as questões precisam do seu par solucionável.
Curiosamente, quase como uma madalena proustiana, foi perante uma turma de adolescentes que falei pela primeira vez sobre Lynch. Sobre “Twin Peaks”, sobre “Dune”, sobre “Eraserhead”. Abordei Laura Palmer e os cavalos misteriosos que surgiam no seu quarto. “Sexo com solípedes?”, perguntou, chocado, um colega – estávamos na Escola Agrícola, daí o palavreado. Ficaram atónitos com aquelas descrições. Eles, sedentos de um cinema escapista, tão comestível quanto possível, não conseguiam conceber que algo tão delirante, tão ilógico, tão críptico pudesse brotar de uma tela.
David Lynch, o cineasta que, nos últimos tempos, tem sido negado financiamento – uma mostra de que mistérios estão a faltar numa Hollywood cada vez mais em linha recta.
A ti, Lynch, as memórias, a minha perplexidade, a minha vénia. Espero que o tempo esteja maravilhoso onde quer que estejas. Possivelmente um tempo lynchiano!

David Lynch (1946 – 2025)

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