People are taking more pictures now than ever before, billions of them, but there are no slides, no prints. Just data. Electronic dust. Years from now when they dig us up there won’t be any pictures to find, no record of who we were or how we lived.

Citação retirada num daqueles indie darlings menores e esquecíveis que conquistam atores de renome para encher o seu plateaus – “Kodachrome” (Mark Raso, 2017) -, aliás é Ed Harris, previsivelmente acompanhado pelo seu olhar desgastado e derrotado para com o progresso que o atinge a debitar tal diálogo. Lembrei-me desta mesma dito enquanto contemplava a galeria fotográfica proposta por “I’m not Everything I want to Be”, uma coleção curada por Klára Tasovská a partir do espolio da fotografa checa Libuše Jarcovjáková, que desde a sua tenra idade captava o seu redor numa Praga sob o domínio Soviético

Começou pela fábrica que trabalhava e mantinha como símbolo da sua emancipação financeiro-social, e por entre intervalos e saídas dos operários, de lente em riste presenciava “pessoas reais”, a intimidade entrava nesses registos visuais, a câmara subjetiva servia de diário corporal, e dessas impressões ressurgiram uma sexualidade reprimida até à repulsa para com o próprio corpo. Viveu intensamente entre a comunidade que lhe pertencia por direito, das noites experienciadas no extinto T-Club por entre a “fauna” queer … shiuuuu … o regime não pode saber, mas a câmara sim … e clique … fotografa aquilo e acolá, mantendo um vinculo para com uma contemporaneidade acelerada, com doses generosas de alcool, drogas … não mentimos … e sexo como prosa daqueles dias abstractos. E o que dizer do Japão? Ou dos últimos dias do sovietismo em Praga? Da queda do Muro de Berlim? Da publicidade e do desejo de ser o que sempre desejou ser mesmo que a possibilidade seja uma incógnita iludida das mentiras fantasiosas contadas enquanto criança?

I’m not Everything I want to Be” é a cronologia com imagens, não das que faltam (perdoa-me Rithy Panh), mas das que abundam. Todas de uma autoria, de uma assinatura, de um específico olhar que se esconde por detrás daquela lente: Jarcovjáková é uma zeitgeist, por vezes tristonha, outra vezes festiva, e umas quantas episódicas fases como vencida. As passagens orais, extratos dos seus diários preenchem cada imagem como confessionária legenda, e sublinha-se, unicamente as suas fotos, o seu álbum … ou melhor, os seus álbuns … unicamente suas, um filme-exposição regido do seu esforço vivente, Tasovská apenas emprestou o espaço para a instalação. 

Mas foi aquela afirmação de Harris em “Kodachrome” do qual não consegui largar ao longo desta amostragem, o filme está aqui, as fotografias estão em outro lado, em outro formato, físico salienta-se, sendo que num futuro longínquo perante os cataclismos a lidar (quem sabe), futuros ‘nós’ debruçaram nestes álbuns, não só como uma parte do século XX como igualmente a dimensão da sombra de um dos seus habitantes. Jarcovjáková não é apenas uma fotógrafa nem a imagem de uma(s) fotografia(s), ela tornou-se perante a escassez de inscrição humana motivada pelo instantâneo e a banalização da imagem, numa personagem credível e documentada do seu tempo. Adivinha-se arqueologia visionária.

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