Não é a primeira, nem será a última … por vezes os filmes nascem das oportunidades e das hipóteses angariadas, e nunca do planeamento ditatorial, da mesma forma que a ideia se adapta, reajusta, embebendo na fórmula darwinesca, testando-se à lei da selecção natural. “Reas”, segunda longa-metragem da argentina Lola Arias (“Teatro de guerra”, 2018), é o resistente desta anti-fórmula, um embrião de filme costurado entre ficção e o documental (leia-se realidade extraída), num pseudo-musical com cárceres femininas de Buenos Aires, uma grande produção (até que ponto não sabemos) cujo impacto pandémico a impediu de prosseguir conforme o tracejado, optando por uma simulação e experimentação de ex-reclusas, entre o relato das suas historietas, e fantasias emanadas no género “maldito” do musical (tendo em conta que as reinvenções deste universo parecem ser apenas admitidas em plataformas de nicho, ou seja “viva Emilia Perez”, “ódio para Joker: Folie aux Deux”). 

O resultado é uma farsa, nunca escondendo a sua natureza enquanto tal: com Yoseli Marlene Arias, jovem detida por posse de droga, instalada numa prisão cujas companheiras de cela, grande parte delas integradas numa banda, organizam um concerto como momento alto das suas “estadias”, uma espécie de grito revoltoso às suas injúrias e injustiças sociais que as conduziram a esse “limbo”. Toda essa narrativa pontuada por histórias e vivências, injectadas num “faz-de-conta” possível para com os seus meios, ou a prisão-cenário imaginada pelas ruínas, a requisitar a fertilidade criativa do espectador e a depender dele a sua resposta cognitiva. Esse lado artisticamente experimental, guia Arias [a realizadora] pelos becos e desconstruções do género que analisa, despindo-a do seu propósito hollywoodesco – o escape emancipador – ou de estéticas aperfeiçoadas, de ritmos febris e de todo o jingle mercantil. 

É, antes de mais, um musical desengonçado de genes parentescas aquele que Bruno Dumont apresentaria como choque na Quinzena de Realizadores de 2015, num desafinado “Jeannette, l’enfance de Jeanne d’Arc”, aqui, a melodia é quase como um encosto, nunca um condutor, e por outro lado, as protagonistas, diversificadas, e nunca padronizadas. Nesse efeito, “Reas” promove o corpo, o seu ecossistema, a sua “evolução”, por outras palavras as diferentes formas, os diferentes géneros e ambiências, é um ensaio corporal, de tomar à força um género “bonitinho”. 

Dele nasce uma intenção para lá do conceptual, a da voz, ou vozes, e desse resgate do artístico para além dos mesmos “protagonistas”. “Reas” deu origem a uma digressão performativa, com este grupo de marginalizadas a serem rainhas do seu próprio palco, enquanto que Lola Arias perante o exequível, dá-nos o real ficcionado com beijos no braço a um gracioso lado trash (a um certo bailado à lá John Waters ali e acolá). Um feel good nada oco.

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