Béatrice Dalle é a guardiã da fortaleza do espaço e do tempo, um salão de dança, como os antigos nomeavam com fulgor, que para o comum dos mortais, os viventes das ruas envoltas no tédio dos seus quotidianos, não passa de uma discoteca. Nesse lugar, as leis da física são violadas sob o regulamento lúdico, um escape que aqueles meros mortais anseiam experimentar. O tempo, por mais infinito que possa parecer, nunca passa de uma mera sensação; na verdade, ele voa, as horas correm, os anos passam ao som da batida. Do disco ao tecno, está empregue nessas cadências os seus zeitgeists.

Aí, já no início do relato, enquanto o “verde” ainda era uma garantia, John e May reencontram-se. Ela relembra-o de uma passagem passada, de que não eram estranhos, — já se haviam cruzado, conhecido, conectado. John, que não se recorda desse encontro inicial, rende-se ao conforto das suas palavras, e ambos tornam-se um fictício par naquele lugar imerso em álcool, euforia pré-sexo e promessas / juras de uma libertação social com a chegada do amanhã. Na intimidade desse momento, John confessa o seu segredo mais obscuro: acredita estar destinado a um grande evento, e essa espera consome-o, provocando-lhe uma ansiedade latente, como se algo — de qualquer natureza, talvez uma fera — estivesse à espreita, pronta a atacar a sua jugular.

La Bête dans la Jungle”, de Patric Chiha (“Brüder der Nacht”, um filme com o mesmo encantamento artificial e devaneios oníricos), inspirado no clássico literário de Henry James, é o ajustes dos tempos e do seu contexto, sendo aquele espaço de divertimento nocturno um museu encapsulado de memórias, onde cada melodia é uma passagem no tempo e cada corpo “levitando” na pista de dança é uma peça do seu período [1979 – 2004, para sermos mais detalhados]. A multidão, que aqui assume o papel de personagem principal, dança e anseia pela lascívia das suas juventudes sagradas, conduzem-nos, por um lado, a uma espécie de “madalena proustiana”, recordando-nos de como as loucuras nocturnas foram, outrora, uma fuga às prisões das nossas sociedades, e por outro, tornam-se os delimitadores temporais, refletindo uma orientação ao espectador.

Na plateia, estão os nossos protagonistas, observando esse fenómeno natural de como os anos são velocistas. Eles contemplam, tal como o espectador, aquele mar de corpos em transe ao som da música da vida. Anaïs Demoustier (May) e Tom Mercier (John) são esses voyeurs da emoção alheia, sem perceberem que as suas próprias carnes não resistem à crueldade do decorrer. Assim, “La Bête dans la Jungle” adquire uma estética e uma crítica existencial à passividade, tal como os “garotos” de “The Dreamers”, de Bernardo Bertolucci, que, com uma revolução a acontecer lá fora, refugiam-se nas suas tentações e snobismos domésticos, é o passivismo de quem vive privilegiadamente nas suas comodidades. No caso do casal deste filme, é a espera por uma espontaneidade quase milagrosa que os transforma em mortos-vivos, alheios à vida que os rodeia. Tornam-se amorfos, anestesiados, insatisfeitos, até que a morte os separe.

“La Bête dans la Jungle” é uma viagem não só pelas memórias de um “night club“, mas também pelas nossas próprias existências.

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