A reunião de sete amigos, ainda jovens, com muita vida pela frente, numa estância de verão com a praia “à porta”, encapsulado num objeto estranho, arriscado e, por vezes, vaidoso — uma espécie de “L’Avventura” de Antonioni, se tivesse sido escrito por Vicente Alves do Ó. Isto porque, entre esses jovens, paira uma distância, seja social ou estética, em relação ao comum dos mortais que se conta maioritariamente o espectador. No entanto, seguimos por outro caminho. Há algo que pesa sobre os seus ombros, uma espécie de fantasma, que, num filme de duas horas de duração, é desvendado em tão pouco tempo, numa ejaculação precoce narrativa.
Perdoamos tal precipitação, até porque “Chuva no Verão” é a primeira longa-metragem de António Mantas Moura, e antes da sessão de imprensa fomos alertados por um dos responsáveis da sua distribuição de que o realizador tem apenas 27 anos. Com essa idade, há uns anos atrás, seria um “homem feito” — com calo nas mãos e uma equipa de basquetebol em termos de ‘filhotes’ — adultos na verdade do comum senso, emancipados ou decretados a uma morte certa. Hoje, 27 anos, está-se na ‘flor da idade’; experienciamos o tempo de maneira diferente da “era da outra senhora”. Portanto, as personagens desta trama assumem os seus 25 anos, mas vivem como se tivessem mil e um fados para contar.
Nada contra este tipo de histórias, mas Mantas Moura revela-se incapaz de as contar. Para “escrever” sobre personagens joviais com profundidade é preciso manter-se distante dessa época, observando esse estado como uma miragem entrelaçada em memórias codificadas e interpretadas ao longo desse hiato. Despir o encantamento ingênuo, ou o fatalismo de pavio curto que esses genes frescos ainda recolhem. Mantas Moura vive ainda nessa idade. Para ele, os 20 anos parecem o fim do mundo, e é dessa sensação que as suas personagens parecem encarecer, mesmo que o conflito coletivo carregue tragédias nos respectivos bolsos.

“Chuva no Verão” é uma obra mastodôntica de quem ainda soa ‘verde’, deixe uma sensação de interminável perambulação por um drama de inconsequências, com jovens que se confundem entre si, num fascínio pela proeza de nunca ceder ao estilo televisivo. Se, por um lado, a estreia de César Mourão se fez / rendeu por essa linguagem, Mantas Moura tenta ir mais além, com alguns planos de detalhe que apimentam a jornada, ou planos gerais que procuram induzir um sentimento que, por vezes, falta no desempenho do seu elenco, que declama diálogos com uma crueza de principiante.
O realizador aproxima-se de uma estética pop sem nunca exagerar na vertente plastificada. Realiza anúncios corporais prolongados, e, nesse aspeto, não podemos mentir: há pretensão, tentação e esforço visíveis. No entanto, por vezes, isso não é suficiente. “Chuva no Verão” é o exemplo de que, por vezes, a prática é necessária para avançar rumo a horizontes mais distantes. Afinal, não se “descobre” o caminho marítimo para a Índia quem apenas andou de canoa.

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