A poucos metros da estrada, uma banca clandestina vende livros que vão desde clássicos russos a Kafka, enchendo o olho do nosso protagonista – errante que sonha pousar em terra longínqua e gerir uma biblioteca – deleita com os autores e aqueles artefactos, observado com indiferença da sua filha que o pressiona para que abandone o espontâneo comércio. Após a compra, o vendedor chama a atenção do seu instantâneo cliente, secretamente revelando uma garrafa com uma infusão de ervas, que segundo o próprio, é uma medicina contra a melancolia, esse tormento de alma e de soturnidade que perseguem quem a morte conscientiza como a eventualidade sem aviso prévio. 

Grace”, do russo Ilya Povolotsky, um road movie na senda dos road movies europeus (influências assumidas aos dramas de trilho de Wim Wenders), declara-se um desejo do realizador em ver “costa ocidental” enquanto “navega” pelo brutalismo ou o legado miserabilista herdado por antigos impérios soviéticos. Contempla-se, portanto, paisagens, comunidades desligadas e remotas, falsas-esperanças e desesperos entranhados, num filme que usufrui de constantes panorâmicas como que a viagem a ponto incognito interagisse também na presença do espectador, e isso faz-se com a maior sorreitariedades, até porque somos deixados à mercê da nossa percepção, à semiótica trazida pelo que testemunhamos, porque nada nos é dado de barato em matéria narrativa. 

Pai e filha em terras “nunca antes pisadas”, projetando filmes e vendendo DVDs pornográficos como sustento; ela (Maria Lukyanova), fotografando aqui e acolá na intenção de um registo, ou quiçá de um íntimo arquivo, algo que possa sobressair da sua frágil carnalidade, e ele (Gela Chitava), o nosso sonhador tardio, pisando fronteiras e taigas siberianas, induzida numa humidade feroz e um frio que contamina a alma mais sociável. “Grace” é um filme melancólico que teima indicar as curas e nunca concretizá-las, aceitando o sofrimento como unicamente seu, conduzindo forçosamente o espectador à sua atmosfera corrente numa sugestiva geografia político-social detida por multi-interpretações. 

Apesar de antípodas, Povolotsky é como um “Sandro Aguilar em terras de Putin”, ambos desfazendo storytellings estabelecidos e garantidos, e através do olhar, contemplação, natureza e decadência, chutar, não o enésimo coming-to-age, e sim a mais silenciosa inquisição a um regime (seguindo outros “provocadores” políticos, porém menos subtis, como Kantemir Balagov). Isto na ótica de quem deambula por estrada afora, na sede de encontrar um oásis adiante. 

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