Sobre Wiseman e como falamos do Wiseman entra em conflito com este “Un Couple”, visto como uma excepção ao seu estudado modus operandi, assim queremos acreditar. Contudo, há que ter em conta o contexto desta sua ficção, “a primeira” segundo as considerações do próprio – no entendimento e encurtar das nuances nas fronteiras entre as duas dimensões [ficção e documentário], opomos como a terceira (se contabilizarmos “Seraphita’s Diary”, 1982) – foi concebido em alturas de COVID e confinamentos, cuja sua abordagem torna-se numa resposta alternativa naquilo que Wiseman sempre se primou e que se encontrava privado, diríamos a sua sublinhada essência, as instituições enquanto ponto de partida. 

Portanto, falar de Wiseman de “Un Couple” não é o mesmo que falar de Wiseman de “National Gallery” (2014), de “Zoo” (1993) ou até mesmo na progressiva aproximação à sua natureza consagrada em “High School” (1968), é penetração numa experimentação tardia. Com isso aproximamos de uma outra experiência sua – “The Last Letter” (2001) – com base numa criação literária de Vasiliy Grossman, em que a atriz Catherine Samie, interpretando uma sobrevivente do Holocausto numa ocupada cidade ucraniana, lê a última carta do seu filho, um filme que reune as bases dramaturgias teatrais com uma narração epistolar. Tal igualmente apresentado neste “Un Couple”, desta feita embarcando na troca de correspondência entre Sophia Tolstaya com o seu marido, o célebre escritor russo Leo Tolstoy. A matriz mantém-se, uma atriz, neste caso Nathalie Boutefeu (“Irma Vamp”), debita a mistela producente da condensação destas cartas e diários, trazendo consigo um discurso de representação à relação tortuosa entre o casal e, possivelmente, refletindo numa alma de dor do cineasta. 

O filme foi concebido nesse luto de Wiseman (a sua esposa, professora e musa Zipporah B. Wiseman, faleceu em janeiro de 2020), do extrato, o diálogo imaginário e inconclusivo de Sophia transporta-se e revela-se numa espécie “mea culpa” wisemaniana enquanto desconstroi uma simbiótica presença matrimonial com une dois artistas tão talentosos como inconformados. E é por isso que questionamos o interesse do cineasta nesta aventura fora das suas aventuras? Para além da carga de conforto sentimental em histórias de outrem, possivelmente o desejo na replicação da sua esquadria, a prova dos nove de fazer ficção como quem faz documentário (apesar de Wiseman tal consideração ou demarcada existência imposta na palavra “documentário”). 

Nessa veia escondida documental (contrariamos a vontade do realizador), nota-se o grande ardor do filme, aliás, a primeira sequência com mar à vista no horizonte, praia e falésias, o vento que sonoramente desafia a sua presença para lá do elemento, surge-nos uma gaivota, uma acidental ave em destacado plano, revelando-se no ponto de referência mais wisemaniano desvendado por estas bandas, a sua relação com o espaço e com o tempo é um catalisador desse olhar tão observacionista que o cineasta angaria como talento natural e que expressa como interlúdios do falso-monólogo da atriz Boutefeu (fauna e flora, visualmente ou sonoramente, tecendo poesia bucolista que no texto está ausente). 

De resto, partindo de Sophia no seu aposento, escrevendo e rescrevendo, a meia luz da sua vela – a imagem de entrada do universo que nos acompanhará, a rimar com a de saída, esse reconhecimento ao seu quarto tenebroso – e a seguimos por um passeio temporalmente uniforme naquele jardim, a recitação de cartas e esse conversar para com a invisibilidade (o título traiçoeiro “Un Couple” coloca-nos na sugestão desse diálogo distante), que colocam Wiseman na imagem de um Colosso de Rhodes, pisando cada margem, seja na sua “ciência” fílmica seja nas bravuras em defesa do Verbo como dita o cinema comumente atribuído ao registo straubiano

Acima de tudo, é através desse instrumento formalista que Frederick Wiseman se reconhece nesses escritos, e é a partir dessas camadas que nos deparamos com um objeto totalmente emocional. Em tempos incertos, um passeio pelo jardim torna-se um processo de apaziguamento dos seus próprios demónios.

Pensar a História é sempre uma relação do momento presente.”

 Pedro Florêncio, “Esculpindo o espaço: O cinema de Frederick Wiseman” (Edições Húmus)

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