É sobre Amy Winehouse de que falamos, da sua ascensão, da sua música e, obviamente, da sua decadência, com reabilitações e uma morte precoce aos 27 anos de idade, elementos que contribuíram para a construção de um mito moderno. Estamos a falar dela numa cinebiografia, vista como uma maldição por muitos dos artistas da nossa cultura, seja pop ou além disso, o que nos deixa num estado de apreensão e por vezes depressivo ao fórmula que o subgénero se transformou. Neste novo capítulo da interminável saga, questionamos: há ousadia ou cobardemente caímos na convencionalidade? Infelizmente, a resposta parece não ser a primeira!

“Back to Black”, com a assinatura de Sam Taylor-Johnson – realizadora hoje mais conhecida, infelizmente, pelos créditos de “Fifty Shades of Grey“, o fenómeno literário que bem se apercebeu das suas inconsistências (não sendo o filme superior à má escrita do livro, verdade seja dita), mas antes, explorou as demandas de um jovem John Lennon em “Nowhere Boy” (com um igualmente jovem Aaron Taylor-Johnson) – é um biopic “bem-comportado”, demasiado inofensivo para com a figura que homenageia / retrata. Acredita-se que se uma mosca pousasse na sua testa, esta nem se atreveria a esticar a mão para a afugentar. Portanto, é inegável o sentimento de telefilme que percorre os pedaços da sua vida, os amores e desamores, a droga ali escondida, e os factos e cheques com paparazzis para nos situar como uma cronologia pedagógica. Novamente, é o esquemático do seu biográfico a ser protagonista, e não a “personagem” / “personalidade”. 

Amy Winehouse, aqui representada por Marisa Abela, parece não encantar tanto como se esperava (culpa-se mais a cobardia do filme do que o seu empenho). Ela é apenas uma figura de estudo do meio; associamos a sua voz, os seus êxitos (“Rehab” a “Valerie“, “Stronger than Me” ao homónimo single que aufere título, a colectânea está lá toda), o seu penteado “beehive“, mas nunca a sua persona. Para os adeptos da cantora, “Back to Black” (referência ao seu marcante álbum de 2005) é um balde de água fria, uma lavagem de relações ambíguas e mais, à sua existência, e quanto a cinema, nada de realmente transgressivo ou, situando-se no percurso da artista que recusava ser uma Spice-Girl, um regresso aos hinos passados ou a estéticas anteriormente validadas, apenas técnica industrializada para “caber” nas mais divergentes telas (cinema transmutável irão nos vender como “banha de cobra”). Por outro lado, o suposto antagonista, o ex-companheiro, e para muitos a via de uma vida de excesso e autodestrutivos para com Amy – Blake Fielder-Civil (interpretado por Jack O’Connell) – emana uma empatia imprevisível. Que estranho! Mas o que se irá fazer, o resultado é deslavado.

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