Desfazendo a sua translucidez, uma massa disforme de sombras, várias silhuetas questionam a figura alta e colorida perante elas: “Contadora de Histórias, que história nos vai contar?”. Antes desta responder, são várias as sugestões saídas daquele público incógnito, várias opções e vários registos; a discórdia reina por momentos até a tão declarada Contadora de Histórias apaziguar as emoções com a frase “Quem só tem uma história não tem muita imaginação”, e assim desenrolando para três prometidas histórias [“Le Pharaon, le Sauvage et la Princesse“], contos morais que se comprometem aos pedidos do seu público ávido, agora escutadores daquele serão, e nós, espectadores, confundimos-nos entre eles, aceitamos a historieta pronta, e trovam-se outros tempos, aliás, esses hiatos que separam a trilogia; Antigo Egipto, Idade Média e Turquia do Século XVIII. 

Primeiro, um nubiano que, aliando-se aos variados Deuses do Nilo, se converte num faraó por direito, e fá-lo por amor. Segundo, um menino desobediente, felizmente desobediente, condenado à morte pelo seu próprio pai, um feudalista, e à mercê da compaixão e misericórdia dos seus eventuais carrascos, exila-se na floresta onde se tornará no justiceiro e Belo Selvagem. Por fim, o terceiro relato, um romance proibido entre um pasteleiro turco e uma misteriosa princesa que tem as pétalas de rosa como sua assinatura. Cada uma dessas histórias, sem nunca fugir completamente da habitual linha visual e representação multicultural do veterano Michel Ocelot (“Azur & Asmar: The Princes’ Quest”), auferem características estéticas díspares, a do Egito a mimetizar os desenhos hieroglíficos, o segundo a minimalizar-se como um teatro de sombras e o terceiro, apostando numa tridimensionalidade simbiótica. 

Cada história, cada moral, cada pureza e ingenuidade, artifícios e muitos a nunca limitar a imaginação e o seu pressuposto simbólico, dito cariz de um trovador e dessa arte narrada gradualmente mais debilitada pelo excesso de explicitude que contaminam nossos territórios audiovisuais. Animação adulta que nos faz regressar às férteis possibilidades (a sua simplicidade é também ela elemento expansivo), às infâncias envolvidas em mistério, com poesia codificada e cadências meticulosamente trabalhadas. Ocelot novamente, e pontuado no seu predileto registo antológico, prova ser um verdadeiro contador de histórias – e longe de imaginações reduzidas – um cargo em vias de extinção, mas nota-se, a precisar de proteção.

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