A badalada fórmula de “boys meets girl” (ou “girl meets boy” para equilibrar as perspectivas) recebe um “twist” em “Slow”, a segunda longa-metragem da lituana Marija Kavtaradze. Uma confissão, ora despejada descontraidamente num momento pré-íntimo – “sou assexual” – coloca-se como obstáculo numa relação que cobiçava a prosperidade.

Essa “bomba” declarada parte dele, Dovydas (Kestutis Cicenas), levando uma reação inicialmente incrédula por parte de Elena (Greta Grineviciute). Ambos tentam lidar com esta interrupção do eventual desejo sexual, a carnalidade que poderia servir de motor à consumação desta relação, porém, é através dessa distância (o que não resume a uma frieza abordagem na obra), de que são encontrados novos atalhos à infértil-recepção. Ela, dançarina, utiliza o corpo como manifesto, libertação espiritual das suas afecções, ou neste caso, falta delas, enquanto que ele, intérprete gestual, o corpo é uma ponte de compreensão e emissão, é por vias dele que sentimentos são incentivados ao contrário da sua “companheira” que parte de um dialeto interior para exterior. “Slow” expressa-se na interação de ambos, na sequência das suas “artes”, a alternativa ao lascivo ou a naturalidade com que os seus velcros corpóreos se comunicam.

Kavtaradze experimenta um romance com tudo para falhar e render-se ao campo da comédia, só que os tempos são outros, a ridicularização ao foro da sexualidade é um campo minado com cuidados redobrados para o traspassar. Ora, tentamos abordar a identidade sexual para longe do tom da complexidade e o encaixamos na normalidade do receptivo quotidiano (e quiçá, senso comum), por outro, através de uma sociedade menos dada aos desejos, assexuado no sentido frívolo da suscitação de fantasia, o filme recorre a outras alternâncias para indiciar a tão ausente sexualidade. Seja na performance de Elena ou na assertividade com que os gestos de Dovydas sintonizam-se com os diálogos “falados”, o corpo é aqui, não só um objeto de deleite sexualizado, mas um objeto politizado.

O que “Slow” discursa, é que “sexo” enquanto ideia está inerentemente presente na nossa sociedade, sem o talhar à vulgaridade, ou melhor, à fácil consumação do mesmo.

*Filme vencedor do Prémio de Realização, na secção World Cinema, da edição de 2023 do Festival de Sundance

Deixe um comentário

Outras leituras