O sucesso televisivo francês (2004 – 2009) traduziu-se num spin-off cinematográfico que não envergonha de ostentar a grande produção por detrás. Em “Kaamelott: – Premier volet” a questão não é o de ter ou não ter piada – o humor arturiano que não foge à comparação das demandas sacrílegas dos Monty Python pelo Santo Graal (o meu pensamento nunca abandonou esse filme) – e sim a exigência e os esforços (como forças) em o trazer esse relato para o grande ecrã. 

Imagino, e até aposto, que os adeptos da original série cómica não se sentirão defraudados ao ver este seu acidentado Rei Artur (Alexandre Astier, para além de protagonista, é o realizador e argumentista) contras as forças ditatoriais instaladas por Lancelot Du Lac (Thomas Cousseau) desta forma e em forma de metragem, com uma capacidade de ternura e de preservação com o intelecto, emocionalidade e cariz histórico-mitológico destas personagens. Isto, obviamente em comparação ao fenómeno português de Curral de Moinas: os Banqueiros do Povo (Miguel Cadilhe, 2022), assim como também de outras conversões televisivas para grande ecrã [“Morangos com Açúcar“, “Uma Aventura”, “Um Filme da Treta”] que não passaram disso mesmo, conversões, sem o requisitado “trocado por miúdos” em termos cinematográficos. É de conferir que em apenas um minuto de “Kaamelott” existe mais cinema do que uma hora e meia do filme do “Telerural”, e não estamos sequer a falar de um cinema expressivo, transgressivo ou extremamente virtuoso, e sim cinema popular. Poderemos discutir os meios de produção aqui acarretados numa realidade francesa em contraste com uma realidade portuguesa (mesmo conhecendo o atribulado “parto” deste filme devido a direitos, financiamento e Covid), e é uma discussão válida, porém, não deixa de ser facto que se transpareça uma má vontade em fazer cinema popular nacional sem ser a “cuspidela” televisão na tela. 

Quanto a este “Kaamelott”, o embarque de uma prevista trilogia, é uma comédia arturiana impermeavelmente francesa (presenteando tão francês, e até mesmo culturalmente fechado para o seu bem de importação) com o seu habitual gosto em transmitir a guerra entre classes. Ou seja, para “francês ver”, enquanto isso, o elenco de comédiens é de luxo (Guillaume Gallienne, Christian Clavier, Clovis Cornillac e até Sting faz a sua aparição de olhar atento para a sequela), principalmente para quem a tradição das comédias francesas populares é sentido em sala.

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