Para Blanco (Javier Bardem), a vida deve ser contrabalanceada ao ponto de encontrar o seu devido equilíbrio, e é sobre esse mote que o empresário atingiu o sucesso, uma determinação ao ponto de exigir mais e mais de si. Em “El Buen Patrón”, o derradeiro dia está para breve, um cobiçado prémio para, por fim, “equilibrar” a parede incompleta que nós, espectadores, somos presenteados intermitentemente. Falta uma semana para a premiação e tudo deve correr como planeado. 

A personagem de Bardem é nos apresentada da seguinte maneira, num piso acima dos seus funcionários, discursando sobre os seus êxitos profissionais de longa data e atribuí-los como frutos do “espírito de corpo” daquela fábrica de balanças que é o seu “filho prodígio”. Para este “bom patrão”, os seus trabalhadores não são trabalhadores, são família e como tal exige que sejam tratados e o que o tratam como isso mesmo. O primeiro impacto é importante, até porque quem não acredita em ingenuidades dentro do mercado de trabalho reconhece automaticamente as palavras-chave para a persuasão de uma ideia de classe mitigada, socialmente sonhada, uma fantasia manipuladora. Blanco não é tão “bom” assim, a sua ambição o torna implacavelmente determinado e manipulador, mesmo que o seu redor descambe na cadência de uma malapata manifestada no decorrer de uma semana (sete dias em queda livre). Fernando León de Aranoa (“Los Lunes al Sol“) parece reconhecer que o seu filme é um “filme de ator”, regendo-se à capacidade de Bardem em apresentar-nos um homem encantador e igualmente cruel, uma reunião de elementos que resultam nos alicerces de poder. 

É que mesmo ambíguo e questionável, torcemos pelo seu triunfo, é a nossa inabalável fé num sistema capitalista a revelar-se, ou, simplesmente a nossa falta de alternativas a uma estrutura tão dominante como essa. “É mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”, escreveu a certa altura Slavoj Žižek. Blanco é essa representação, com objectivos em mira, tudo e mais alguma ‘coisa’ para trapacear a balança ética. No final, mão no ombro e “família” como palavra de reconforto. Perdoados e perdidos, a lei da vida moderna. 

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