Quando a bizarria se torna um gesto autoral, o “sem razão” Quentin Dupieux assume-se como um dos nomes fortes desse cinema de realidades violadas por um elo absurdo e fantástico, mas sempre pontuadas com o seu quê de existencialismo metafórico. O realizador em estado de graça desde que fez o atípico relato de um pneu assassino em “Rubber” (2010) e cujo anterior conto obsessivo era sobre um homem determinado a exterminar todos os casacos de pele de camurça em “Le Daim” (2019), regressa agora com “Mandibules“, um “bromance” constantemente desafiado pelas excentricidades da sua própria jornada.
Os comediantes Grégoire Ludig e David Marsais interpretam aqui uma espécie de Harry e Lloyd (do sucesso de “Dumb & Dumber”) em versão francófona. São uns taralhocos criminosos, “entranhados” em imbróglios resultantes das suas incapacidades e “imbecilidades”, que se deparam com uma inexplicável mosca gigante e engendram um caricato plano para amestrá-la. Tendo uma veia cómica mais acentuada e reluzente, “Mandibulas” parece funcionar como uma piada prolongada e arrastada por “sketches” dignos desse humor na fronteira do absurdo e da malapata. Mas o filme vive apenas disso, dessa colectânea fluída, e revela-se um esforço inerte, ainda que não se possa deixar de destacar Adèle Exarchopoulos, que nesta arriscada caricatura nos desafia a olhar para ela fora dos contextos “sex symbol” ou da eterna diva “kechichiana” de “La Vie d’Adèle” (2012).
Já a mosca, o acidentado “Macguffin” que dá origem à história, presencia-se como um elemento “normalizado” num biótopo surreal e de uma extravagância sui generis. Mas vemos pouco da criatura, não no sentido visual mas de forma mais interactiva com o resto da acção. Embora percebamos que toda esta anedota advém de um pretexto moral e que o insecto colossal é o impulsor, mesmo que soe forçado num final, literalmente, caído do céu. O resto que há para ver é mirabolantemente seco e gasto e, infelizmente, “Mandibules” é um daqueles casos de “ter mais olhos que barriga“.

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