29 Anos separam o original de Bernard Rose desta nova ressurreição com cunho (e influências) de Jordan Peele (“Get Out”, “Us”). Nesse espaçamento, o mundo mudou e a nossa relação para com ele também. No caso do hiato que interliga os dois “Candyman” (aqui dispensamos as sequelas realizadas em 1995 e 1999 que serviam como enchimento das prateleiras dos videoclubes), essa mudança encontra-se presente na ebulição racial como pano de fundo numa história de espíritos assassinos vingativos.
Inspirado num conto de Clive Barker (“Hellraiser”), “Candyman” configurou-se como mais um “slasher” que alcançou o culto dos anos noventa e que facilmente caiu em desuso pela escassez (e incompetência) criativa que pairava em produtos B. Mas focando-se no original que nos apresentou Tony Todd como um ícone marginalizado do chamado “horror negro”, o filme centra-se nos traços psicológicos da sua protagonista, uma estudante branca (há que frisar isto para o contexto) que trabalha numa tese sobre lendas urbanas, fascinando-se por uma com origem num gueto que tem dias contados – a do assassino munido de gancho que surge no reflexo do espelho após o seu nome ser pronunciado cinco vezes.
A obra é subtil neste choque entre os dois mundos, o de uma privilegiada e o de uma comunidade de escorraçados, grande parte de pele negra, vítimas de um fenómeno imobiliário denominado de gentrificação. Acrescente-se a isto um toque paranormal de requinte e uma Virginia Madsen cedida à martirologia ambígua e voilá, temos um dos filmes de terror mais subvalorizados dos últimos anos, porém, não esquecido. O que se comprova pelo facto de alguém ter convocado novamente a tal entidade sanguinária para estes novos tempos.
Jordan Peele, que tem pugnado pela dignidade comercial do dito “horror negro”, contou com Nia DaCosta que há uns anos impressionou com uma pequena curta em tom fabulista sobre a fictícia lenda / origem por detrás de “Candyman”, narranda por via de marionetas de sombras. Desse trabalho que se assumiu como pitch (visto que esse lado estético foi reaproveitado), e na linha de ressurreições de velhos papões (basta verificar a revitalização para com Michael Myers e os seus “Halloweens” para entender a incapacidade de apostar em novos ícones do terror), nasce uma sequela / reboot ao jeito dos novos tempos.
Contudo, o tema invocado do original permanece, só que com outra abordagem, solicitada pela nossa contemporaneidade – a consciencialização. A gentrificação, a discriminação racial e social e outras questões como a impunidade da polícia perante as minorias desfavorecidas já não são mais sugestões, são tópicos de convívio, de jantar, de arte falada, são propagandas vencidas dando lugar a prioridades sociais. Este “Candyman” funciona ao banhar essa luz, ao trazer a modernidade que nós vivemos diariamente, e nesse sentido existe nesta figura fantasmagórica um apelo de experiências nas suas forças criativas.
Obviamente, que isso não invalida a destreza de Nia DaCosta em lavar este terror num embelezamento sanguinário, com um espírito renhido do cinema “slasher” e acima de tudo um joguete de reflexos, fora de campos e pormenores cuidadosos que apimentam esta tentativa de trazer para grande plano um dos mais formidáveis assassinos do cinema. Infelizmente, o sentimento de reciclagem não nos abandona: “Candyman” por vezes soa como a sobreposição de um legado retirado a quente por um gancho, e isso chega a condená-lo, por exemplo, num anti-climático terceiro ato.

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