Advertimos que as imagens que se seguem podem ferir susceptibilidades!” Quantas vezes já ouvimos este tipo de aviso, vindo do pivô que lê o seu teletexto dando uma falsa-sensação de compaixão para com as nossas sensibilidades. É um alerta, nisso não há dúvidas, mas igualmente um isco para a curiosidade humana. E nós, telespectadores, somos incapazes de desviar o olhar, mudar de canal ou desligar as nossas TVs perante tal “propaganda”, sentimos hipnotizados pelo suspense que aquelas imagens de macabro poderão nos dar. Sentimos-nos na obrigação de corromper-nos perante a violência do mundo ao nosso redor. 

É desta forma que “Contos de um Verão Negro” (“Favolacce”), dos irmãos D’Innocenzo [Damiano e Fabio] abre, um telejornal e um aviso idêntico, acompanhado por uma família tradicional, de sorrisos esboçados como qualquer vida perfeita proclamada num anúncio televisivo, prontos para verificar o dito “choque”. É com isto que apercebemos um dos propósitos nesta jornada pelas felicidades escassas e disfuncionalidades familiares, a nossa relação com a violência dos outros em oposição da nossa incapacidade de lidar com o meio violento de onde surgimos. 

À primeira vista soa-nos território de um Todd Solondz (“Happiness”, “Wiener-Dog”), a tentativa de nos simpatizar com personagens desprezíveis, todos eles emborcados no seu “mundinho” e nas suas inúteis conquistas, adultos fracassados que se revêem nos poucos triunfos dos seus filhos (uma sequência em que num jantar entre famílias, as crianças leem em voz altas as pautas finais da escola sob um indiferença cruel por parte dos seus progenitores). Por sua vez, as crianças tidas naquele ambiente negativo culminam uma relação (auto) destrutiva. 

Os irmãos D’Innocenzo (curioso apelido para um filme desta natureza) trabalham narrativas entrelaçadas de fracassos existenciais, humanos sem “ponta que se pegue” e um burguesismo nefasto que contamina os residentes de fora para dentro. Ao contrário do conceito proposto pelo galardoado “American Beauty” de Sam Mendes, o de olhar de perto para os suburbianos de maneira a descodificar os seus mais íntimos devaneios, em “Contos de um Verão Negro” somos induzidos a afastar essa mesma vontade. 

Talvez seja por isso que a viagem por estas negritudes falha, sentimos impressionados pelo leque de personagens que dificilmente convidaríamos para o íntimo do nosso convívio mas que no desfecho há uma sensação de desperdício das mesmas. O narrador parece troçar desse mesmo “em vão”. O porquê destas histórias? Onde está a moral? Qual a razão desta existência? Se era para demonstrar como o ser humano é uma criatura negra, não era preciso mais um filme.  

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