Há muito que se tenta colar Jason Statham à memória de Charles Bronson, seja pelas reinvenções de velhos cultos do ator norte-americano (como “The Mechanic”, obra de 1972 que originou uma versão de tuta e meia em 2011) ou pela performance fragilizada no centro da ação, uma opção do britânico que, pouco a pouco, vem abandonando a onipresença frenética a que tem sido submetido em vários dos seus filmes.

Nesta visita ao velho amigo “bastardo”, com quem deu os primeiros passos no cinema há mais de 20 anos com “Lock, Stock and Two Smoking Barrels” (1998) e “Snatch – Porcos e Diamantes” (2000), o ator aproxima-se ainda mais da vingança de proporções bíblicas tão próxima de Bronson: “Wrath of Man” é esse ensaio de ação. E ainda que nada de frontalmente criativo pudesse nascer disto pois a história é “mais antiga do que o tempo”, nem por isso é obsoleta.

Além de Statham, com a sua rudeza familiarizada, a empenhar-se com o necessário rigor à sua personagem acinzentada (não precisamos de sentir empatia pela sua figura, mas pela sua causa), encontramos aqui um Guy Ritchie, “videoclippeiro” de base e propício ao subgénero que reúne comédia e violência num só “copo” conhecido por “gallows humours” britânico, que após anos e anos refém das produções “hollywoodescas” que o padronizaram e banalizaram a sua estética (“Sherlock Holmes”, “Rei Arthur: Legend of the Sword”, “Aladdin”), dedica-se aqui a um exibicionismo técnico e simultaneamente maduro e capaz.

Wrath of Man” tem tendência para ser demasiado embelezado e tático em comparação com o seu enredo, e sobretudo, a tentação obtusa de complicar o que não necessita ser complicado (“flashbacks” atrás de “flashbacks” em cima de uma narrativa com queda para “twists” atrás de “twists“). Mas fora essas essas intenções de exploração de filão, dedica-se de corpo e alma à sua “vendetta“, zeloso quanto aos sentimentos de “justiça”. E perante essa ambição de tornar este ator “vulgar” numa hagiografia, Ritchie consegue, por momentos, atingir uma crença invulgar na sua personagem e no seu “pathos“.

De certa forma, foram estas as pisadas de Charles Bronson durante o seu reinado cinematográfico, acreditar no seu próprio ativismo. Não só “de coração“… “fígado, pulmões, baço e coração“!

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