O que leva uma mulher, supostamente encaixada numa perfeita vida profissional e familiar, a romper toda essa harmonia em prol de uma saciável fantasia? “A Rainha de Copas”, apropriando-se da eterna vilã de Alice no País das Maravilhas de Lewis Carrol que vê na decapitação o seu mais comum castigo, orquestra toda e vertiginosa descida de uma mulher realizada nos mais diferentes quadrantes, que comete o “pecado” de prosseguir o seu íntimo desejo, que desconhecendo, a acorrenta-a. E isso acontece sob a forma menos provável, a vinda do filho problemático do seu marido, fruto de uma relação anterior, que despertará esse  fetiche, cuja sua concretização a confrontará e a desafiará os seus dotes manipulativos.

Assinado por May el-Toukhy, a “Rainha de Copas” (“Queen of Hearts”) aproxima-se das anteriores demandas do desejo que nos últimos anos experienciamos com filmes como “Gloria”, de Sebastián Lelio, “Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, e “Elle”, de Paul Verhoeven, dando a nós uma sensação de abertura da ala sensualizada e emancipada de mulheres veteranas. Contudo, diferenciando dos exemplares referidos, o facto de ser uma mulher ao volante desta intriga aufere uma certa legitimidade no tom e identificação das desventuras e sensualidade imposta na nossa “Rainha’”. Coroada, e sendo a peça fundamental, desta tremenda espiral dramática está Trine Dyrholm, atriz dinamarquesa que tem destacado a passos moderados a sua compostura e frieza, quer em “Troubled Water”, de Erik Poppe, ou na pele de Nico na cinebiografia dirigida por Susanna Nicchiarelli (“Nico, 1988” em 2017). A sua exposição é o que a demarca das demais atrizes que cometem tais jogos desejosos, e a sua arrojada forma de reafirmação dá compreensão quanto às suas jornadas sexualizadas, realçando um método verité na sua forma interpretativa.

É de surpreender essa disposição que nos faz alterar a comum perceção do que é uma interpretação, e como, à luz das leis strasbergianas, colocar o seu corpo e alma na prontidão do seu desempenho; quer no realismo dos seus sentimentos, quer na veracidade da sua sensação. Se a “Rainha de Copas” sustenta-se devido à dedicação da sua realeza, é também nos pequenos detalhes sugeridos pela realização, inteiramente observacionais na arquitetura e espaços, que colocam o espectador no centro deste igual trono. Depois segue-se a ambiguidade, o silêncio mórbido e a interiorização dos desejos como verdadeiras caixas de Pandora. Para cada liberdade há uma consequência, e para cada consequência, existe um amoral esquema de o evitar.

A Rainha de Copas” é outra peça fulcral daquilo que os EUA têm sempre evitado na sua definição de personagens femininas fortes, que é colocar o desejo carnal como emancipação da mulher nos seus mais variados estados de vida. No fundo, os homens têm exatamente medo disso, de uma mulher capaz de saciar os seus mais entranhados prazeres.

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