Havíamos encontrado vitalidade em Robert Eggers, não somente “sangue novo” num género cada vez mais dependente das “majors”, da auto-referência e sucessivamente dos seus viciosos lugares-comuns, mas visualizamos em “The VVitch: A New-England Folktale” (“A Bruxa”, 2015), sobretudo, uma maturidade imagética. Essa, é propícia na criação de uma densa atmosfera que constantemente nos guia para o desconhecido e ergue a sua cabeça por um certo fascínio daquilo que não compreende.
Passados 4 anos, chega-nos “The Lighthouse” (“O Farol”) e voltamos a deparar-nos com essa maturação e encanto pelo críptico e disperso. Mas é aqui que o jogo se desenvolve, e refiro “jogo” porque Eggers brinca com referências com a pretensão de demonstrar toda uma bagagem cinéfila. É de um jeito vampírico que vai beber das imagens, das construções estéticas e dos distúrbios que assentam nas suas personagens (Robert Pattinson e Willem Dafoe, como pupilo e mentor), tão crípticas como o ambiente envolto, como a deambulante atmosfera onde o denso nevoeiro se descortina perante um punhado de referências cinéfilas.
É apenas óleo que aprimora a narrativa, que o torna uma tentativa de engate ao mais acérrimo cinéfilo. Convém afirmar que este trabalho de Eggers não está longe da carreira que James Gray apresenta; dos anónimos truques de citação, a fim de se sentar nas tão cobiçadas mesas dos “anciões”.
Em “The Lighthouse”, é toda uma mistela de restos deixados por Jean Grémillon (“The Lighthouse Keeper”, de 1929, é a sua grande referência), pelas atitudes expressionistas e os contornos lovecraftianos deitados ao mar para todo um vasto leque de criaturas marinhas alimentarem-se. No fundo, é isto: uma ‘masturbação’ como aquela que Pattinson urge para afastar o seu tormento, isolamento e pensamentos nefastos. Um filme teoricamente sujo emoldurado pela fotografia “vintage” de Jarin Blaschke, que já havia trabalhado com Eggers nessa sua grande obra “The Witch”.
Por isso, tal como Willem Dafoe, que perante a sua condição de farrapo humano desenrasca qualquer motivo para brindar, nós – meros mortais – brindemos à vaidade e à ambição do reconhecimento:
Should pale death, with treble dread, make the ocean caves our bed, God who hears the surges roll deign to save our suppliant soul.“

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